Vigésimo andar

O cheiro enloquecedor de maquiagem tornava a presença de Berenice ainda mais intensa. Um perfume diferente, que exalava personalidade, delicadeza e costas arranhadas. O cabelo ao vento, andar descompromissado

Abre-se uma porta de prédio comercial na Rua do Ouvidor, protegendo o saguão frio do calor da rua. É Berenice derretendo o mármore daquela portaria cinzenta. Suavemente pousa o indicador nos botões do elevador.

Vigésimo andar.

Deliciosamente ruiva, o vestido florido, a cara pintada, as unhas feitas. Quem é o sortudo que irá vê-la? Plim! A porta do elevador abre. Espelhos, botões prateados e acabamentos em ouro.

Sobe.

Entra gente no cubículo de transporte vertical. Ela pensa. Sabia que elevadores são considerados meios de transporte? E sobe os vinte andares num rapel de devaneios, curiosidades conhecidas como ‘cultura inútil’. Suave, chega seu andar.

Cobertura.

A câmera, operada por um gordo sujo no segundo andar, trancafiado entre monitores e aparelhos velhos, acompanha os passos de Berê pelo corredor.

De noite, a TV mostrava as imagens da mulher bem vestida que se jogou da cobertura.