Uma manhã de domingo no subúrbio

Os crentes descem a ladeira com suas roupas coloridas e a Bíblia embaixo do braço. “Deve proteger mais que um desodorante”, pensa o cachaceiro solitário, no boteco que mais parece largado às moscas do outro lado da rua.

Estampando sorrisos largos, os homens de ternos cafonas insistem em apertar as mãos uns dos outros, e cumprimentam as mulheres apenas com um sorriso. No boteco, chegam dois biriteiros, recebidos com festa pelo cupincha que chegou primeiro.

Enquanto o culto se prepara para dar início, muita gente conversando educadamente. No boteco, os três amigos cantam em voz alta, alegres, comemorando a vida sem lá muita razão aparente. São dez da manhã e já fedem a cerveja.

Acaba o culto, e lá se vão as senhoras gordas e suas crianças bem arrumadas distribuir panfletos. O bar já está cheio e os carros na rua se misturam entre carros crentes arrumados e carros botequeiros de todo tipo. Um crente entra no bar e oferece sua mensagem. Todos ouvem atentamente, dão glória a Deus e conversam. Um deles oferece um copo de cerveja, mas o rapaz, como bom crente, não aceita. A sua mensagem era válida, mas a cerveja não.

A gritaria dos homens, que agora lotam o boteco, destoam do samba que sai de uma jukebox já velha. Cada um pede sua música, e fazem até uma fila, anotada no papel de pão que o Manel guarda no lado do caixa. As mulheres pretas com suas crianças de roupinha branca começam a chegar juntas, com óculos escuros enfeitados. A igreja já está vazia, todo mundo foi pra casa almoçar em família. No boteco todo mundo almoça junto, sobrinho vira filho e vizinho vira parente.

Naquela manhã de domingo, Deus estava em muitos corações.