Uns de nós são escalados para a solidão e a dor. São caras que não enxergam problemas em estilos de vida silenciosos e autodestrutivos, sem contar com a companhia de uma mulher, de um amigo, de um grupo e nem com o time de futebol. Família é luxo.
Pois assim estava Ribamar, perambulando no trem sujo fedendo a vômito. Sozinho, com a crista baixa, perfume de pinga, Ribamar não sabia pra onde ia. Só sabia que ia.
A sociedade impõe como modelo de vitória o cara que tem carro, casa própria, esposa e filhos. Olhando para este clichê escancarado numa propaganda rasgada na parede do trem, Ribamar começa a lembrar do seu barraco embaixo da ponte, o bilhete de transportes achado na rua e seu cachorro chamado Rex.
O guarda interrompe o sono de Riba, que não faz a menor ideia de como foi parar naquele trem. O último para sabe-se-lá onde. Leva duas cutucadas na costela, e prontamente se levanta. Ainda tonto, mas levanta. Ambiente seguro, alguma ventilação e ainda o embalo da composição sobre os trilhos formam o ambiente perfeito para o mendigo descansar.
Jogado pra fora da Estação Central, só lhe resta camuflar-se entre o lixo e esperar adormecer. A polícia já não lhe incomodava. A malandragem o tratava pelo nome. No seu caixote havia equipamento para engraxar sapatos.
Ribamar era considerado bem-sucedido pelos mendigos da rua de trás.