Casal maldito. No ônibus cheio, inundado de gente com calor, cada carícia que trocam é uma bofetada em cada passageiro. Calorão, pessoas suando, fedendo, se abanando, murmurando e até respirando.
Engarrafamento.
Não bastasse o climão, o coletivo pára atrás do caminhão do lixo. Quinze segundos depois começa a sinfonia de buzinas desesperadas. E o casal ali, com seu amor monumental, entre risadinhas e olhares com direito a cochichar ao pé do ouvido.
– Aí não! Aí é sem vergonhice demais! – brada Tião, o velhinho mais brabo do banco amarelo.
Do alto dos seus sabe-se-lá e tantos anos, ajeita a dentadura e resolve tomar uma atitude. Sua inimiga artrose tenta impedir o movimento enquanto a diabetes vem pelos flancos baixando a glicose.
– Alguém me ajuda!
O casal pára imediatamente sua melação (o corretor disse “relação”, veja só a ironia). Assustada, a mocinha agarra sua bolsa enquanto seu namorado abana o pobre velhinho.
– Preciso de açúcar, estou passando mal! – o velhinho diz, com cara de gato pidão querendo sair.
Então Berenice, tão delicada e inocente, se acalma com a bolsa e começa a cavucar à procura de um docinho pro vovô, já nas últimas.
Seu Tião não consegue conter a felicidade ao devorar uma balinha de côco.