Um despertar de Ribamar

Duas velhas banguelas, de pele esturricada e batom ridículo aplicados em lábios grossos eram a primeira visão de Ribamar ao se dar conta que ainda não havia chegado em casa. Ele desperta com um carimbó frenético vindo da jukebox ao lado da máquina caça níquel. Três Cachaceiros da mesa de trás estão aplaudindo as banguelas, o que contribui para o despertar.

Cabeça pesada, como de costume. Uma leve tontura, como todos os dias. Seu corpo frágil não faz o menor esforço em se levantar e sair daquele ambiente nada familiar. E a pergunta que não cala: como chegara ali? Ribamar esfrega os olhos e olha em volta, tentando encontrar algum sinal que lhe indique familiaridade.

No bar, as placas de “fiado só amanhã” não diziam nada. Ele percorre as paredes e não há uma foto sequer que ele lembre. Haviam apenas retratos de uma mulher ao lado de homens famosos, que ele não faz a menor questão de reconhecer.

Procura a rua. Paralelepípedos já muito surrados. Passa uma carroça. Linhas de energia, daquelas torres grandes, cortam a paisagem. Ribamar percebe que está longe do Centro quando avista dois vira-latas e uma cabra bebendo água da mesma poça.

De volta pro bar, ainda se apoiando nas paredes, o dono do estabelecimento cumprimenta sua ressaca: “rapaz, pensei que você tinha morrido! Ainda bem que as gostosas sem dente ali te salvaram ontem de noite e te trouxeram pra tomar uns anestésicos hehrhehe”._

De súbito, Ribamar olha para as pessoas. As banguelas de vestido amarrotado e maquiagem estranha parecem familiares.

Sua mãe era a pior dançarina de carimbó daquele bairro. E a namorada dela também.