O cabelinho curto, ruivo de arrancar suspiros, era o suficiente pra declarar a delicadeza de Berenice – mesmo com suas tatuagens e carinha amarrada para os rapazes da esquina. Mas a culpa era dela não.
Senta direito, Berenice. Cruza a perninha. Veste aquele vestidinho rosa que mamãe comprou. Faz isso. Faz aquilo. Se comporta. Berê cansou.
Das suas viagens por esse mundão, carregou na mochila sempre um bocado de tristeza – não importava a cor da roupa. Dá um sorriso, Berenice, você é tão bonitinha. E a mocinha virou moça com a discrição de apontador do jogo do bicho. Os vestidinhos lentamente tiveram que dividir espaço com as curvas novas, com palavras novas, com a sociedade velha.
Berê tava cansada.
A ruazinha de paralelepípedo foi asfaltada anteontem. Sinal dos tempos, final dos tempos, sabe-se-lá o que seria isso. Só sabe-se que ontem mesmo Berê queimou seus vestidos.