Sim, ter amigas feministas me fez um homem menos pior

PULP FICTION | Vincent Vega e Mia Wallace: dá até pra guardar segredos e ser amigos. Só não vale pedir "foot massage".

Sei nem como começar esse ensaio aqui. É que me vem um turbilhão de memórias, um monte de esporros, um monte de textinhos e textões, de reações, de medos, de tanta coisa que nem sei como explicar de forma clara e objetiva como as mulheres feministas me impactaram.

Pra começo de conversa, não sou ‘feministo’.

A causa é das mulheres, mas a luta é de todos. Longe de mim querer dar aula sobre o assunto, até porque este não é meu lugar de fala. Cabe a mim compreender e multiplicar pra outros homens a seriedade do assunto.

A ficha caiu pra mim quando vi uma mulher numa situação vulnerável sob o efeito de bebidas e uma outra mulher, que já me conhecia, pediu pra eu ajudar a moça – outros rapazes estavam tentando se aproveitar dela. Minha primeira reação foi apenas ficar por perto, sem encará-la pra não oferecer perigo. Eu tinha muito claro pra mim que mulher nenhuma precisa de macho pra se defender. E isso me lembra uma outra situação que rolou antes, peraí que já volto nessa.

Tava numa festa. Som alto, diversão e uma amiga estava super de boa se divertindo. Eu entendia perfeitamente que ela só queria curtir um som e lá estava eu, mantendo uma “safe zone” (distância/área segura) sem estar ‘dando em cima’ da moça. Mais pro final da festa, percebi que ela estava alterada, mas bem lúcida. Eis que um rapaz começa a se chegar e eu delicadamente encostei a mão esquerda nas costas dela, entre a cintura e a nuca. Oras, eu a conhecia e tocá-la (respeitosamente) não seria um problema. Ela delicadamente tirou minha mão dali e continuamos dançando. No final da festa, lá fui eu pedir desculpas pra ela pelo incômodo e ela mesma explicou toda a situação: “eu entendi que você só queria ‘me proteger’, mas eu não corria nenhum perigo e não precisava de proteção. E se o rapaz quisesse mesmo chegar em mim? Até que achei ele bonito”. Plaft! Senti a minha cara tão quente que a explicação (dada sem nenhum tom de briga, ela foi bem educada) me acertou como um tabefe muito bem dado.

Ah, então, voltando,

Já sabendo que ela não precisava de homem em cima, mas a situação era complicada, apenas a observei de perto, mais de olho nos psicopatas ao redor. É que a amiga havia me chamado dizendo, com essas palavras: “a menina está tão mal que vi gente passando a mão nela e ela não percebeu”. E tava mal mesmo. Quando fui conversar com ela, coloquei as mãos pra trás pra não parecer que eu tentasse me aproveitar dela. A direcionei pra algumas amigas dela (a razão disso tudo é que ela havia se “desgarrado” do grupo). Fui pro meu lugar deixando o canal aberto pra caso precisassem de alguma coisa – independente de eu ser homem, afinal, tratava-se de alguém que estava mal.

Respeito, brother. Tem que respeitar as minas. Não fiz nada demais nessas situação e conheço um monte de homem que faria o mesmo.

Minha maior dificuldade nesse sentido é o lance da proteção. De um lado, cresci ouvindo que o homem tem que proteger a mulher. De outro lado, a vida adulta me ensinou que não é bem assim. Não é o tempo todo. Mulheres não são seres indefesos que precisam ser cuidados a todo custo. E tem mais: aprendi que homem e mulher não podem ser amigos.

Podem sim.

Recomendo a todos os homens: façam amigas mulheres, especialmente mulheres feministas. O processo é lento, mas o aprendizado é grande. Foram décadas de mensagens machistas que nos moldaram. Nosso caráter, inclusive, está construído com base numa sociedade machista. Nós não vamos mudar de uma hora pra outra mas com o tempo a gente muda sim. Isso me faz lembrar outra história.

Conheço algumas meninas mais “rad”, como o pessoal chama as feministas radicais. Eventualmente se torna impossível conversar com algumas delas, já que ouvir “sai hétero” a cada vez que me manifesto é bem frustrante. Já passei por isso numa mesa com várias pessoas e tive que deixar o ambiente, que estava venenoso demais pra mim. Não tava amigável porque eu era o único homem na mesa, mesmo tratando todo mundo de forma igualitária. Algumas meninas não sabiam lidar com a presença de um homem hétero na mesa conversando de boas. Feministas radicais existem e elas cumprem também um papel importante. Encaro essas mulheres como uma linha de frente mesmo, que têm disposição pra fazer um enfrentamento que leva a galera ao debate. Por mais que eu tenha detestado a situação que vivi, óbvio que fiquei pensativo.

Mas enfim.

As amigas feministas me ensinaram que a melhor maneira que tenho pra apoiar a causa delas não é sendo ‘feministo’. O grande lance é levar para o dia-a-dia o debate com outros homens e ajudar a rapaziada a se ajustar. É apontar pro amiguinho que ele está sendo machista e ele tem que mudar. É não achar graça, quando estiver na roda de amigos, quando contarem uma piada sexista. E isso não é ser chato não, galera.

Convenhamos, nós homens não sabemos lidar nem com os nossos próprios problemas. Como vamos lidar com os de pessoas de outro gênero, ou ainda, transgêneros?

Não acho que a gente vai superar o machismo ainda na minha geração. Mas dá pra gente ensinar os meninos que tão chegando agora no mundo a se prepararem pra se tornar homens melhores.

Resolvi que meu primeiro projeto audiovisual vai tocar nessa temática. Afinal, ‘O que é ser homem’? Existem muitas respostas pra essa pergunta tão simples, mas ficou claro pra mim, desde o início da investigação que ser homem tem a ver com respeito. Envolve de maneira profunda respeitar as pessoas e merecer o respeito delas. Quero falar de um jeito sério e sensível sobre isso.

Mas, convenhamos, precisa ser homem pra respeitar os outros? Mulheres e trans também respeitam as pessoas. E é por isso que eu acredito que a heterossexualidade, principalmente do homem, está hoje em xeque. Precisamos encarar de frente as possibilidades de um homem que chora, conversa sobre seus sentimentos, é sensível e ainda assim continua hétero.

“Frescura!”

Frescura é o car@7H#. Eu já vi muito marmanjo deixar correr uma lágrima solitária no canto esquerdo do olho quando toma uma cachaça e de repente engolir seco dizendo algo do tipo ‘é, pode crer, tem que resolver essa parada’ – e você não precisa ir longe pra perceber que o álcool é uma grande fuga pra muitos homens, servindo para extravasar as emoções. Já vi muito amigo se reprimir e não conseguir lidar com os problemas. Não dá pra chamar de “frescura” quando sai um estudo da OMS mostrando que homens se matam até três vezes mais que mulheres nos países ricos e duas vezes mais em países pobres. Não é frescura não. Eu mesmo já cansei de evitar conversas que exponham meus sentimentos sobre algum assunto. Homens têm mais sentimentos além de “raiva”.

O machismo tem sido a causa de muitos crimes. São homens que querem impôr a heterossexualidade a outros e cometem assassinatos contra homossexuais. São homens que subjugam mulheres através da força, impondo relacionamentos abusivos que levam ao espancamento e morte. São homens que deixam de desenvolver habilidades fantásticas para o ballet, só pra citar um exemplo, porque acham que “isso é coisa de boiola”.

Sinceramente, “coisa de boiola” é achar que alguma coisa é “coisa de boiola”.

Não, pera!

Você entendeu, querido leitor. Segue o baile.

A cada dia que passa tenho conquistado cada vez mais amigas. A ideia de “conquistar uma mulher”, pra mim, ganhou novos significados. E isso tem sido fantástico, afinal, não tenho mais que olhar pra uma mulher e pensar que só consigo ter contato com ela se houver um cunho sexual nisso. Que nada. Faço até piada sobre isso com as amigas mais próximas.

Hoje só consigo me interessar por uma mulher se houver sentimento, se houver química, se houver aquele “je ne sais quoi” na troca de olhares e sorrisos.

Graças a essas amigas que tanto me ensinaram, já não preciso mais micaretar o rolê.