São João de Mentirinha pode se tornar uma cidade de verdade

São João em São João. Foto: Cartógrafos de Meriti.

O Formigueiro das Américas. Mais de meio milhão de pessoas acomodadas num espaço que cabem trezentas e dezoito mais um bode. Há quase dez anos atrás o mestre das rimas Slow da BF batizava São João de Meriti como “São João de Mentirinha” – e até hoje não houve verdade suficiente para derrubar esse nome. O também MC e também meritiense Mon-Ra fez até uma música com esse nome.

Após um prefeito pavoroso do ponto de vista da cultura, que manteve uma secretaria sem verba e no final da reta a tornou uma subsecretaria, eis que agora habemus Secretaria de Cultura. Meu primeiro encontro com a nova gestão foi tão trágico que durou cinco minutos ou menos. Apesar de ter secretaria, não há propostas sólidas, não há ainda nenhum canal de escuta e decisões já começaram a ser tomadas sem sequer consultar publicamente o Conselho de Cultura, a sociedade, as pessoas impactadas pelos projetos mantidos a trancos e barrancos pela gestão anterior… Meu primeiro contato foi, veja só, pra registar o óbvio: que a gestão anterior deixou tudo abandonado.

Gente, 2017, vamos virar a folha.

A quem interessar possa, vale a pena falar um pouco do que é a cultura de São João de Meriti – pelo menos vou contar um pouco da que conheço, afinal certamente vai muito além dos parágrafos abaixo.

A cidade tem(tinha?) uma das principais rodas de rima do estado do Rio de Janeiro, a RCPS (Roda Cultural da Praça do Skate). A galera começou sem nenhuma grande ambição, até que se tornou coletivo, tomou forma e hoje realiza até festas fechadas. Inclusive tiveram que sair da Praça do Skate “por razões de segurança” e se mudar para a Praça dos Três Poderes.

Coelho da Rocha é praticamente o berço da MPB (Música Popular da Baixada). Alguns dos principais artistas dessa geração moram no bairro e se encontram por lá pra desenhar seus shows, que já passaram nos principais palcos da Baixada (Todos os Sescs e demais espaços públicos), pelo Centro do Rio e até pela Zona Sul. O Jardim dos Estranhos é uma verdadeira casa para os apaixonados pela arte na cidade.

Não se iluda com o Parque de Eventos. O lugar já fez até freelancer de lixão. Empurraram goela abaixo a ideia de Rodeio em pleno século XXI e apesar de reunir milhares de pessoas, os grandes eventos com artistas do mainstream, sem valorizar os artistas da cidade e de toda a Baixada, foram alvos de críticas.

No tal Parque de Eventos existe ainda um Circo, mantido pela galera do Se Essa Rua Fosse Minha. O espaço foi cedido por dez anos pra ong utilizar. Esse acordo aconteceu durante a gestão anterior, quando a subsecretaria ainda era secretaria e houve essa construção de legado pra cidade. Sempre tive o Se Essa Rua como um grupo sério e bom de diálogo. Apesar da localização difícil para usuários de ônibus, trata-se de um espaço de fácil acesso de carro e que tem todas as condições de se tornar um polo criativo para o entorno e receber espetáculos de interesse para toda a cidade.

No Centro acontece o Cineclube de Guerrilha, ponto de encontro do Cinema de Guerrilha da Baixada que atrai intelectuais de toda a região. Suas sessões acontecem no Bar do Caramujo, na ciclovia. O CGB está no Mapa de Cultura do Estado e já foi palco de diversos artistas da Baixada, além de trazer nomes nacionalmente conhecidos para acompanhar as sessões.

A região do Eden tem duas batalhas de rap. Há um coletivo em ascensão, a Rosa Gang, formada por jovens do próprio bairro que desejam se organizar para fazer música e flertar com coletivos além do hiphop. Essa turma tem revelado alguns MC’s que em breve vão despontar no cenário carioca do rap.

Gente, e as bandas?

São João de Meriti tem várias bandas de diversos gêneros. Lisbela, Pornograma, Gente Estranha no Jardim… Isso pra não montar uma lista gigante de nomes. Inclusive São João de Meriti já foi palco de grandes bandas do rock nacional. De Ratos do Porão a Pitty, muita gente bem famosa já veio se apresentar por aqui.

A cidade tem também alguns grandes nomes na cena cultural nacional. Minha família, inclusive, é fã do Paulinho Gogó – cria da Venda Velha. Também abrigamos Serginho Meriti, famoso pelas suas parcerias com grandes nomes do samba. O rapper Slow da BF é uma das personalidades meritienses que já foi parar na TV por razões artísticas. O poeta Lasana Lukata é da cidade e facilmente encontrado pelas ruas meritienses. Famoso internacionalmente como vocalista da banda Confronto, Felipe Chehuan é cria de São João de Meriti. A cidade também trouxe ao mundo Wesley Brasil, mas este já não é lá muito famoso. Vida que segue.

São João de Meriti tem grandes possibilidades para a cultura do estado. A Escola de Música no Centro (que nos dois minutos de papo me disseram que vai se mudar para o Centro Cultural na Praça dos Três Poderes) é um ponto extremamente estratégico para ações de impacto. Na rua do Sesc, a dois minutos do metrô, na frente do principal ponto de ônibus da cidade, até hoje nenhuma gestão meritiense foi capaz de extrair todo o potencial do lugar. Calma, alguns vão dizer que já aconteceu muita coisa por lá e eu concordo. Inclusive conheço os últimos administradores do espaço. O lance é que sem recursos, todos fizeram o que puderam, mas a cidade não abraçou o lugar como merece. Oras, sou meritiense, cansei de perguntar pras pessoas se elas sabiam o que era o local e raros souberam responder.

Por falar em Escola de Música, a galera da Orquestra Sinfônica de São João de Meriti é motivo de orgulho para a cidade. Inclusive ela é o núcleo do espetáculo Cem Violinos, que lotou a finada Via Show – mas não vamos falar desse lugar, que na minha opinião deveria ser invadido pelos artistas, ocupando o espaço com oficinas e atividades culturais, tipo o OcupaMinC mesmo.

É por conta de tanta diversidade que não consigo aceitar menos do que um planejamento sério, que congrega os diferentes atores da cena cultural meritiense. Preciso reforçar: MEIO MILHÃO DE HABITANTES. É muita gente sedenta por uma cidade melhor.

A população meritiense é sedenta por cultura perto de casa. Existem vários estudos de caso, como a sala de leitura que funciona dentro do McDonald’s da Rua da Matriz, inaugurada durante o Flidam. Existe também uma sala de leitura no clube Cubiça, também no Centro de Meriti. O Felipe Chehuan escolheu o Jardim Meriti pra inaugurar seu pub, o Gato Negro, que segue padrões internacionais. O “Prédio dos Gatinhos” no Vilar dos Teles estava abandonado até que resolveram colocar um forró e várias festas no lugar. O meritiense quer ver a sua cidade acontecer e isso precisa ser reconhecido.

A cidade precisa urgentemente de diálogo. É fundamental que a nova gestão procure a todos, sem exceções, para conversar. São João de Meriti não pode mais ficar tão atrás de Caxias e Nova Iguaçu. Existem muitos artistas na cidade e essa rede ainda não está formada. Trata-se de uma classe que ainda não se conhece tão bem quanto em outras cidades vizinhas e a nova gestão municipal pode tirar uma vantagem positiva disso, tornando-se o elo entre estas pessoas.

O Conselho de Cultura, reuniões setoriais e tantas outras ferramentas podem servir de ajuda. Não estou falando de editais (ainda), afinal o primeiro passo é a organização pra chegarmos onde tivermos que chegar.

Prefiro acreditar que meus dois minutos de conversa tenham sido apenas um equívoco. Meu trabalho é suficientemente consistente para não ser chamado de “sensacionalista” ou algo assim, por isso me sinto à vontade em escrever isso aqui. Gosto de um bom diálogo, não sou chapa branca e não faço campanha pra nenhum político. Nunca fiz, inclusive.

É que me dói ver que as cidades vizinhas já estão se organizando enquanto a minha cidade ainda prefere perder tempo denunciando o óbvio. A gente sabe que tá difícil sim. Todo mundo sabe, inclusive, que a pasta de cultura não tinha verba mesmo.

Os novos gestores têm uma oportunidade nas mãos. Eles podem acabar com a mentirinha.

Quero morar numa São João de Meriti de verdade.