Ribamar, a gorda e o menino

Embriagado com tamanha tristeza, Ribamar caminha lentamente entre as pessoas. Disfarça suas vertigens com passos arrastados, equilibrando-se sobre os dois pés. Tem gente sorrindo, gente conversando, gente se olhando, gente fazendo tantas outras coisas com outras pessoas, que Ribamar até desconfia que a solidão pode ter fim.

São duas e meia da tarde e ele fede a pinga. Pra variar.

O pinguço não se conforma em viver sozinho, em não ter telefone pra seus filhos telefonarem, em não ter endereço pra receber encomenda, em não ter whatsapp pra receber nudes, em não ter, em não ter, em não ter absolutamente nada além de roupas velhas e um espaço pouco disputado na marquise de um açougue velho.

Chora não, Ribamar. Toma outra. Pede um limão ali na barraquinha, pede pinga pra algum colega de copo, rouba um mel daquela colmeia na rua de trás. Vai lá. Você merece. Já deu o que tinha que dar, já viveu o que tinha pra viver. Agora você só precisa de pinga com mel.

E Ribamar desce a Avenida Nilo Peçanha, dessa vez cambaleando mesmo, assumindo sua embriaguez, rumo à feirinha. Quinze metros depois, resolve cair estatelado no chão. Dá uma gargalhada. Ri da sua própria situação enquanto as senhoras gordas mudam seu caminho segurando aquelas crianças melequentas com a mão esquerda e um montão de bolsas com a direita, de olho na liquidação das lojas de vestidos de viscose. Vem cá, Valdisnei! Estuda que é pra não ficar igual aquele mendigo.

Mas aquele mendigo, senhora, tem nome.

E a senhora bem que podia ensinar o Valdisnei a criar um mundo melhor pro próximo Ribamar ter algum futuro.

Fala sério. Pinga é mais barato.

Mel nem tanto.