A vitrola se esforça em tocar Summertime, com um ritmo meio dixieland que só me faz pensar em você. Lembro das nossas noites de verão ouvindo Billie Holiday, tomando chá de maçã com laranja. Éramos jovens e nos amávamos. Sabíamos o que era essa coisa piegas. Lembra da gente deitado na grama, com aquele toalhão xadrez vermelho que compramos só pra essas ocasiões?
Mas hoje summertime está mais pra versão do Coltrane. O copo de bourbon não descansa parado. Ouço um jazz triste saindo dessa vitrola. Éramos New Orleans, hoje somos New York.
Você me fez feder a poesia. Mas hoje tenho gosto de romance policial. Perdi minha fé em muitas coisas, graças à tua falta de fé. Em mim. Em Deus. Em nós. Ao invés do teu corpo, tenho garrafas. Ao invés do teu beijo, tenho goles.
Goles de memórias dolorosas.
Goles de uma vida alegre que você jogou fora. Poderíamos estar embriagados de amor, imersos no nosso próprio mundo. Era pra esse texto bobo nunca ter sido escrito.
Mas foi. Vazio como o nosso pseudo amor. Rápido como nossa história.
Triste como teus olhos.