Cê lembra quando o circo passou pela cidade? Aqueles carros coloridos desfilando pelas ruas e chegando na Praça da Prefeitura mexeram com todo mundo. Até o prefeito foi lá receber o dono do circo, muitas fotos e uma banda marcial.
Fomos correndo pra pracinha, né, festejar. Você colocou o vestidinho florido que eu amava te ver usando. Calçou até o tênis que te dei, filho único entre tantas sandálias. Fomos saltitando de mãos dadas.
Era o finalzinho do inverno e já dava pra ver as flores da primavera dando o ar da graça. Cê sorriu pra mim e me jurou amor eterno, junto daquelas tantas coisas que o amor jovem carrega junto. Meu coraçãozinho tava ali, aberto, entregue nas suas mãos.
Chegamos na pracinha e o prefeito já tinha ido embora. Mas o povo continuou brincando na rua enquanto o pessoal do circo trabalhava. Tinha pipoqueiro. Umas crianças soltando pipa.
Tinha você.
Mesmo com aquele dia lindo, fomos pra casa. Te preparei meu macarrão enquanto você escolhia o filme, preparava a sala, ligava o ventilador… E comemos vendo aquele filme, lembra? Cê ficou a semana toda esperando pra gente ver juntos. E vimos. Agarradinhos.
De noite fomos ver o circo, já montado e todo iluminado na praça principal. O pipoqueiro caprichou na manteiga. Você caprichou no batom. Eu caprichei, bom, você sabe no que eu caprichei antes da gente sair né.
Mas o tempo é implacável.
E às vezes uma memória como essas dói demais, especialmente agora, cinquenta primaveras depois, e não poder lembrar disso do seu lado. Mas tudo bem, amor.
Em breve te encontro pra gente rir disso juntos.