Cheia de sonhos, Berenice escondia sua timidez sob os cabelos loiros e o olhar debochado de uma menina em corpo de mulher. Curvas indomáveis, cores ardentes que destoavam do jeito meigo de mocinha que fala olhando pra baixo quando quer alguma coisa.
Eram nove da manhã e Berê buscava seu espaço no metrô lotado, rumo à Estação Central. Vinte minutos. Meia hora. Cinquenta minutos. Cinquenta e um minutos. Cinquenta e dois. Até os segundos passavam a se arrastar no meio daquela multidão de mulheres falando alto, contando as vitórias do fim-de-semana – enquanto Berenice lembrava das suas tristezas dominicais e suas derrotas diárias.
Seja forte, Berê. A vida não é assim não.
Por mais forte que seja o conselho, ela precisa desembarcar na estação e caminhar para sua pequena prisão. É seu primeiro dia de trabalho.
Almoçou sozinha.
No fim do dia, Berenice se pergunta o que está fazendo sentada naquela cadeira desconfortável, mexendo em papéis que ela não faz ideia da real utilidade. Ela prefere a borboleta do seu jardim ao seu trabalho. Ela prefere os passarinhos que ficam na árvore do vizinho barrigudo com bigode engraçado que anda mancando da perna esquerda. Berê prefere o verde do bosque no final da rua.
Seu primeiro dia seria mais uma derrota? Berenice perderia mais um dia da sua vida com algo sem propósito?
Ela sequer deslogou do Facebook quando pulou da janela.