Primeira chuva de outono

Quão profundo pode ser o amor? Até onde ele é capaz de ir? Quais montanhas a fé precisa mover até o amor alcançar toda a sua força?

Berenice está ajoelhada na chuva, com as mãos erguidas para o céu e um bilhete já borrado se equilibrando na palma da mão direita. Lágrimas se confundem com as primeiras gotas do outono que caem do céu.

Já é tarde.

Berê não entende muita coisa. Seu corpinho frágil vai pegar um resfriado, sai da chuva, menina!

Era pra ser um amor de verão, era pra ser aquele rapaz que ela conheceu nas férias, um amor de carnaval que morre na quarta de cinzas. Mas Berenice, tadinha, não entende isso. Ela não entende muita coisa e uma delas é esse tal de amor.

Quanto tempo dura o amor? Tem uns que começam na juventude e não acabam nem com cabelos brancos. Tem uns que duram anos. Tem outros que não se medem pelo tempo nem pela distância. E tem aqueles que duram só até o desfile das campeãs, coroando com um beijo as memórias mais doces de uma juventude.

Berenice queria transpôr todas as montanhas necessárias, mesmo naquela chuva, pra encontrar seu amor perdido numa estrada asfaltada, daquelas que levam pra cidade grande. Cansada daquela vidinha na beira do mar, crescendo entre pescadores e artesãos, a mocinha estava determinada a descobrir a profundidade do amor, embarcando no próximo ônibus.

“Te amei”, dizia o bilhete, com um número de telefone já apagado pela chuva. Mas isso já não importava.

Berenice sabia muito bem que o amor, meus caros, o amor às vezes é feito só pra guardar na memória.

Berenice continua na chuva. Agora com os braços repousando nos joelhos enquanto dá um sorrisinho curto, igualzinho a esse que você dá quando lembra de uma paixão bonita que viveu há tantos anos atrás.

Às vezes o amor é feito pra durar um banho de água fria com gotas de chuva.