Precisamos de uma incubadora digital do RioCriativo

Negócios digitais têm pipocado pelo Brasil inteiro e no Rio de Janeiro isso não é diferente. De fato, existem dezenas de incubadoras e aceleradoras presentes nas terras cariocas. Investidores também. Some a isso os coworkings, uma modalidade cada vez mais popular entre startupeiros e empreendedores digitais — não só por aqui, como fora do Brasil também.

No Rio temos uma incubadora do Governo do Estado, o RioCriativo, voltado para economia criativa. Vi a iniciativa nascendo, cercada de uma certa euforia na cena de startups cariocas. Na época comentava-se sobre como isso seria um grande passo para incentivar o empreendedorismo por aqui.

E foi, até certo ponto.

Oras, temos de admitir: a ideia é ótima. O cenário ainda é muito novo, o que amargou algumas bolas fora, como o posto avançado na Baixada Fluminense. O Estado quer se aproximar do estado e ser menos carioca da gema. Mas na hora em que os recursos são limitados, é hora de sairmos da caixa pra experimentar coisas novas.

Fala-se muito por aí da tal disrupção, de reinventar as coisas, de ser inovador e tudo mais. Pelo que vejo, a Secretaria Estadual de Cultura pode ser a vanguarda de uma administração inovadora — o RioCriativo é um exemplo disso.

Recentemente a instituição lançou um edital para ocupação de seu coworking no Centro. Fico me perguntando: e a galera que está segregada do Centro do RJ? E a galera que não precisa de estrutura física mas precisa de organização nos seus processos? E a turma que se mobiliza pela internet e circula por um território bem maior que esse papo de Centro/Zona Sul?

“O Estado não produz cultura. Ele fomenta e ajuda a dar visibilidade”
– Alexandre Pimentel, Superintendente de Cultura e Território

Em janeiro o Site da Baixada triplicou seus acessos. O time pulou de 3 pra 8 pessoas e mais 2 em standby. Formamos parcerias com marcas muito maiores que nós. Mesmo com tanta badalação, ainda não entrou um real sequer. Ainda. Isso não seria um problema se uma coisa terrível não tivesse acontecido: ficamos fora do ar. A única coisa que a gente precisa, em termos de “ajuda”, é manter o SB no ar. A gente se vira com tudo, nos tornamos um coletivo completamente digital, que mantém uma produtividade altíssima: todo dia tem matéria, discutimos pautas, ajustamos o percurso, publicamos material nas redes sociais a cada meia hora… Levamos um mês pra deixar a casa minimamente organizada. E agora está fora do ar. Neste momento o Site da Baixada está veiculando sua primeira campanha nesta fase onde caminha para ser um negócio social. Como o anunciante veio com disposição para fazer sua parte em ajudar, mesmo com a veiculação prejudicada não teremos grandes problemas. Mas novas marcas, que ainda não conhecem o trabalho, podem não ter esta compreensão. Sem capital financeiro, a operação se torna frágil — mesmo com um time forte e uma estrutura digital relativamente bem montada. Mesmo que estivéssemos na incubação tradicional, nada mudaria, afinal nosso negócio social é digital.

Essa experiência pessoal com certeza é o drama de muitas outras iniciativas. Por exemplo, o Voz das Comunidades (Complexo do Alemão) tem colaboradores do Brasil inteiro que se comunicam apenas pela internet. Escrevo há meses no Voz sem nunca ter colocado os pés na redação do Jornal.

Fico imaginando como aquela turma nerd gente boa que teve uma ideia bacana de um aplicativo faria pra se organizar e publicar seus arquivos. Aquele cara que tá juntando os poemas dos amigos pra publicar na web e tem um trampo de qualidade, capaz de representar o Rio lá fora. O coletivo de audiovisual que vive passando perrengue pra transferir seus arquivos. A rede de bibliotecas comunitárias que poderia compartilhar seus acervos. O grupo de teatro sem patrocínio que poderia divulgar seus espetáculos com qualidade. A escola pública que deseja disponibilizar conteúdo extra de estudo para seus alunos.

Vejo muitos caminhos onde a tecnologia poderia influenciar diretamente nos resultados da nossa sociedade, começando pelo “micro” universo da economia criativa e se expandindo para muitos outros através dessa rede de negócios digitais.

Seria fantástico se o RioCriativo olhasse para estes estudos de caso. Serviços digitais como hosting, intranet e disparo de emails poderiam fazer parte de um pacote de incubação virtual. Some a isso recursos de educação à distância, onde incubados poderiam receber mentoria virtual.

O RioCriativo tem uma estrutura física fantástica. Acredito que seja a hora de torná-la virtual também.

Estou falando que com a estratégia certa, é possível criar uma plataforma de fomento de baixíssimo custo, capaz de desenvolver a economia criativa de todo o estado. O cara lá de Paraty não precisaria viajar por horas pra receber uma mentoria. O brother de Itaperuna não teria que buscar até hotel pra poder ficar perto da incubadora por um ou dois dias. Nós aqui da Baixada não precisaríamos encarar o engarrafamento da Avenida Brasil pra saber como desenvolver a sustentabilidade do nosso negócio ao conversar com um mentor.

Recentemente participei de um painel do evento “Territórios Culturais”, contando um pouco dessa experiência no Site da Baixada. Diante de uma platéia bem pequena, a primeira pergunta que fiz foi: “vai transmitir online?”. Nem gravação rolou. Queria ter assistido outras coisas que aconteceram no evento, mas não foi possível. Um montão de experiências que se perderam pela falta de registro. Não que esteja errado, afinal foi uma experiência única. Mas a turma lá em Campos dos Goytacazes iria gostar de ver ao vivo.

Apesar de fazer parte do nosso dia-a-dia enquanto público final, a cultura digital ainda não está impregnada nas instituições governamentais.

Precisamos de ajuda para o Rio ser ainda mais Criativo.