Podia ser só mais uma curtição blasé mas você chegou linda acompanhada de uma amiga da minha amiga. O que nos separava eram cinco metros e a minha timidez de distância. Teu sorrisão era tão bonito que abria até sol naquele mormaço.
Paralisado, te olhei de longe observando o rodízio de meninas ao seu redor, todas felizes em te ver. Abraço pra lá, abraço pra cá, eu acolá entretido com meus pensamentos que se perdiam entre verdadeiros cálculos aritméticos sobre o melhor assunto pra puxar contigo. Sei lá, um “oi”, um “caraca que calor” ou alguma outra amenidade. Nada. Sem ideias e totalmente travado, o jeito era comprar uma água e comer, né. Pedi um hamburger. Com Bacon.
Resignado sob a minha ausência de coragem, fico como uma estátua me deliciando com o aroma da carne de porco queimando na chapa. E agora você já não controla tanto os meus pensamentos, já que desejo mais que tudo aquele lanche gourmet artesanal.
Sommelier de solidão.
“Me vê uma água”, eu ouço. De olhos fechados, habituado ao ermo do meu coração, ignoro. Alguém me cutuca. “Oi, quanto tá a água?”. Antes de virar pro lado pra saber quem era, instintivamente respondi “é três, mas tá quente”. “Me vê duas, por favor”. Repasso o pedido pra menina do bar. “Obrigado”, a voz me invade com um sorriso enorme. Você está bem ali na minha frente fitando as imperfeições do meu rosto, enquanto arregalo os olhos ainda paralisado com teu cheiro de flores da estação, mirando firmemente o conjunto perfeito que teu rosto faz quando sorri.
Era tipo um sol se abrindo, as nuvens indo embora. Embora? Sim, você foi. Foi lá pro meio das amigas que eram amigas da minha amiga, que por sinal eu nem dava bola porque naquela tarde, meu bem, você era o centro de uma galáxia.
Te vendi uma água sem querer, mas te daria todo meu amor de graça por vontade própria.