Sentimento de posse sim, e daí? Porque tem coisa mais gostosa do que encher a boca e dizer “sou dela”? Pode jogar pedra, atirar o pau no gato aqui. Nem vou desviar: sou um cordeiro, confesso, em pele de lobo.
Vale o romance.
Fico me perguntando como é aquela menina pra andar de mãos dadas. Repare, não disse “mulher”, disse “menina”. Não é um lance meio Nabokov, é um papo de amor bonito, aquele bonitinho, que a gente só sente mesmo antes dos 20 anos. Sabe aquele amor cheio de certezas, cheio de planos, cheio de expectativas que enchem o peito da gente de coisa boa? Então, esse aí mesmo. E isso, meu caro, você sente quando ainda é garoto.
Tenho o privilégio de sentir isso aí. Talvez sem a inocência de um bom moço e sem a santidade juvenil de quem só quer andar de mãozinha dada no shopping. Mas tá lá, oprimido, bem no fundo, aquele desejo profundo de ser o menino daquela menina.
No player, “A love supreme” começa a tocar. Nós dois de mãos dadas, apreciando a chuva fina que enche nossos rostos de reflexos da cidade que começa a se preparar pra dormir. Ainda são oito horas e o povo cansado rasteja pra casa enquanto nós, sem ver o relógio, só olhamos pro alto e gargalhamos da vida.
De mãos dadas.
Vestidinho florido, claro, e nos nossos fones de ouvido toca um John Coltrane suave, tão cool quanto nosso amor. Não só amor: é carinho mesmo. Um tantinho assim de posse.
Pode confessar também, meu ogro leitor: você quer sim assinar o contrato. Bem lá no fundo, quando ninguém tá vendo, você olha no espelho e considera a hipótese de se apegar. De entregar seu coração nas mãos de alguém, enquanto você sente medo do que vai acontecer com ele.
Mas tudo bem. Só de entregar a mão já um gesto danado de amor declarado.