A lágrima seca não desceu. Ribamar encarava a si mesmo no espelho com seus olhos quase marejados, muito vermelhos, espumando uma tristeza tão profunda que se confundia com ódio. Talvez fosse mesmo aquele sentimento negativo e pesado, desta vez direcionado pra si mesmo.
Pinga e rejeição.
Naquele banheiro mal iluminado com uma lâmpada amarela, Ribamar tenta se acalmar. Já fazem cinco minutos sem beber e cinco anos morando nas ruas. Narinas rígidas, corisa desce. Ele funga. Luta contra uma tristeza tão profunda que sente o corpo pesado a cada respiração.
Pinga e rejeição.
Do lado de fora do banheiro rabiscado e quebrado, um boteco pé-sujo que toca carimbó. três ou quatro outros bêbados fingem jogar bilhar enquanto algumas mulheres maquiadas com batom na bochecha descem mais uma cerveja. Ninguém se olha de verdade. Ninguém se toca de verdade. Ninguém se quer de verdade.
Pinga e rejeição.
Meia hora depois, Ribamar resolve lavar o rosto. Já não tinha mais água na bica. Só tinham duas coisas ali.
Pinga.
Rejeição.