Um gota de pinga pra cada gota de lágrima.
Ribamar sentado na escadaria do museu já tinha virado três doses sem nenhum sinal que estaria acabando. Camuflado entre os poetas falidos que só queriam dinheiro pra comprar ervas finas, ele ajeita sua camisa de botão já meio desbotada do sol para parecer poeta também.
Depois da quinta dose, não consegue erguer os braços. A cara inchada, as pernas fracas, a testa suada e o poeta mais jovem abanando o cachaceiro formavam uma cena bizarra, misturando amor e dor num só verso. Fazia muito sol e a pinga bateu rápido.
Terminantemente proibido de entrar naquele prédio grandão e chique, a missão simples de beber um copo d’água se tornava complexa. Olha o cara da cerveja ali do outro lado! Tem latão? Opa, de meio litro. É esse, me vê dois. Ribamar se hidrata com aquele líquido de baixo teor alcoólico comprado pelo rapazinho que andava armado de uma caneta e um bloquinho caro no bolso esquerdo. Pro tiozinho branco vestindo bermuda cáqui que assistia aquilo tudo, aquela mistura cairia como uma bomba. Pra Ribamar era apenas água.
Devidamente recuperado, Ribamar saca um pente de dentro da sua bolsa já muito surrada. Apelucia os cabelos, beija o anel, fecha os olhos e ergue as mãos pedindo um sinal divino para dar fim à sua penitência.
Levanta, vagabundo.
Eram os poetas do turno da noite chutando as suas pernas, bem menos pacientes e com poemas publicados em antologias lidas pela galerinha cult bacaninha que pagava meia entrada nos espetáculos de teatro apresentados naquele museu.
Ribamar senta do outro lado da rua, na porta de um restaurante chique que lhe traz belíssimas lembranças de quando não bebia e era amado. Lembranças que encheriam uma garrafa inteira de gotas. De pingos.
De pinga.
(*Nem preciso dizer que Ribamar é um dos meus personagens. Na real, o primeiro. Se bater coragem, juro que publico uma segunda edição de ‘Riberê’ com as histórias dele e de Berenice – tão limitada e secreta quanto a primeira)