Pegamos a estrada

Lembrei da gente na rodoviária. Cê tava empolgada com a ideia de férias e eu animado com as melhores bancas de jornais dali, feitas só pra turistas mesmo. Viagens incontáveis através das palavras. Comprei um chiclete e uma revista daquelas meio zen. Deixei o troco pro jornaleiro. Cê me avista de longe, enquanto caminho na sua direção, e aponta pro caixa eletrônico. A gente se abraça cheirando o dinheiro fresco.

Você era você na relação. Eu era eu.

Malas poucas, na bagagem só muito carinho. Embarcamos. Entre pequenos risos e afagos, pegamos a estrada. Tava passando um filme chato na TV, mas do teu lado toda programação era cinco estrelas.

Lá de cima das montanhas, avisto a metrópole cinza. Por um instante penso nas tantas bolas na trave que eu chutei e nas tantas que você chutou pra fora. Sempre fui péssimo no jogo do amor – e você não era diferente.

A gente chega. Desembarca. Animados, pegamos ainda mais estrada num outro ônibus. Muito mato e serração até nosso destino. Dois fugitivos a caminho da liberdade. Duas vidas entrelaçadas, cúmplices de detalhes tão íntimos que precisaremos levar pro túmulo. A gente se abriu um pro outro e agora só nos resta essa relação maluca e maravilhosa.

Passa um carro da polícia. Nos beijamos. Nossa paixão é a salvação da cadeira elétrica e rimos juntos do perigo.

Precisamos roubar outro banco, meu bem.