Parceira de crime

“Parceira do crime perfeito”, dizia a descrição da conta no Twitter da gatinha. Olhei. Pensei. Bonita. Não chamei na DM, afinal, não faço ideia de quem ela seja. Mas isso me fez pensar: quem não quer uma parceira, né? Alguém pra dividir os momentos mais íntimos, daqueles que não dá pra publicar numa crônica de internet e provavelmente nem pros netos vai dar pra contar. Ou isso, ou sair da lei da Ficha Limpa dos relacionamentos.

Mas convenhamos, a ficha de todo mundo tem lá suas sujeiras.

A parceiragem é fundamental numa bela história de amor. Entenda: parceiragem MESMO. Não se trata de “por trás de um grande homem tem uma grande mulher”. Se você, leitor, considera sua mulher realmente grande, então ela não tá atrás – tá do lado. E esse lance de dividir a carga durante a jornada não é de hoje, mas sabe como é, né: muito mais conveniente vestir o personagem do homem aventureiro que convida sua companheira para de vez em quando acompanhá-lo em algumas aventuras. Parceiragem não é isso não.

Acredito profundamente que todos nós, de alguma maneira, precisamos ser protagonistas das nossas próprias histórias. Mesmo que a gente seja o antiherói. A gente merece. Cê sabe como é difícil viver sem o script padrão de colégio / faculdade / emprego / noivado / casamento / estabilidade / filhos / carro / casa / aposentadoria / netos. Quem segue só um pedaço desse roteiro sabe do que tô falando – especialmente quem chegou aos 30 sem ter batido nem metade da meta.

E se tem um crime chocante pra maioria, é o de dividir o protagonismo com alguém, criando uma história toda nova.

Não estou falando de abrir mão de si. O que proponho é o seguinte: a gente nasce com esse roteiro escrito e o personagem já entregue pra gente, mas podemos não seguir o papel e encontrar alguém também disposto a escrever uma história nova.

Papo de maluco, né?

É que tem quintas-feiras de sol maravilhosas demais pra ficar preso no escritório, solitário no meio daquela multidão de papéis, pra ficar apenas desejando um fim-de-semana vazio cujo descanso só traz mais cansaço. E se você for o parceiro de crime daquela gata que tá doida pra ir curtir um festival em Paraty contigo só com a grana das passagens? Dormir à luz da Lua, curtir dois dias longe da metrópole… E se você pudesse virar pro lado e, sem planejar, roubar um banco de felicidade? Amor, vamos fazer uma caminhada pra pegar um sol? Tem uma playlist aqui daquele aplicativo bacana que a gente divide uma conta família e seria bacana sentir a brisa do teu lado…

Um brinde ao acaso.

“Com ela eu posso ser eu mesmo”, o Harry disse sobre a Sally. Dois atos depois do início da trama, ele podia dizer qualquer coisa pra Sally. Sim, estou falando daquele clássico de 1989 (que por sinal está na minha lista de dez filmes favoritos. Pode me julgar). Acredito cegamente em histórias como a de Harry & Sally. São parceiros de crime. Podem contar um com o outro, podem ser eles mesmos, podem protagonizar suas próprias histórias. E não é que isso dá liga? Sem spoiler, mas já deu pra entender como termina.

Mas entenda, caro leitor, nem sempre a sua parceira de crime vai ser a sua parceira na cama também. O amor acontece. E nesse espírito de seguir a vida sem o roteiro original, de fazer suas próprias escolhas e abdicar do óbvio a favor de uma verdadeira jornada pela felicidade, você vai encontrar ótimas parceiras que você simplesmente quer a parceria. Só quer tocar uma campainha e sair correndo, mas cada um para sua casa. Nada de praticar 157.

E isso também é bom.

Não quero ser o Hitch aqui trocando conselhos amorosos. Até porque entendi que só existe uma Sara Melas. Não dá pra bater a porta dela todo perdido, sem palavras, sem conseguir usar as artimanhas, sem jogar charme e ser apenas você mesmo. Não dá pra arriscar tudo, arriscar a si mesmo e a própria reputação a favor de todo mundo. Uma hora você vai encontrar sua parceira de crime e vai querer sair por aí espalhando esse horror que assusta todo mundo: o tal do amor. Um insulto à sociedade individualista. Uma história escrita a dois – apesar que o mundo tá modernão e tem histórias escritas a três e até a quatro, mas acho que você entendeu o ponto.

Parceira de crime. Sally. Sara Melas. Acho que no fim das contas, a parceira do crime perfeito é aquela que te deixa à vontade pra ser você mesmo e também fica à vontade em ser ela mesma. Ela não fica chateada quando cai maionese na blusa nova. Ela não fica corada em tropeçar na sua frente. Ela não te julga se você tem gostos diferentes do dela. Na verdade, o papo de “os opostos se atraem” é pura mentira, né, já que o que importa mesmo é ser você mesmo.

E tem crime maior do que não ter medo de ser você mesmo na frente de alguém?