Uma vida resumida a açúcar, gordura e álcool: Ribamar se entorpece de todas as formas, sem mais razão alguma, sem inspiração ou amor. Apenas se desliga do universo à sua volta.
Amor? Só à posse, ou melhor, ao pertencimento dos seus múltiplos vícios, manifestados de formas que desafiam os seus sentidos. Ele já não sabe o que tocar, o que cheirar, o que ouvir, e muito menos o que provar. O que ver? Como enxergar com a visão turva?
Há quem julgue: “mendigo tem que morrer”. Mas tem três ou quatro pessoas que lhe servem uma sopa antes de dormir. Ribamar Viaja. Pensa um dia livre, sem vícios, que tenha até um horizonte para ele perseguir. Imagina sorrisos, gente que o ame e queira o seu bem.
Acorda, seu cachaceiro. Você não tem o direito de sonhar.
Percebe as calças já devidamente mijadas, o cheiro de merda empesteando seu cubículo dentro da caixa de papelão. Ribamar tenta lembrar como foi parar ali, mas por mais fundo que tente ir, não lembra de nada: nem de emprego, família, amigos…
Quando o palavrão lhe vem à mente, como única opção para reagir ao universo, Ribamar vê um rosto. Turvo, ainda sem forma alguma, coça os olhos na esperança de enxergar uma lembrança.
Mas não. É só um guarda municipal lhe enxotando do banquinho da praça.
Ribamar dá a volta no quarteirão e volta para onde estava com um copo de pinga na mão.