Os estudantes do Instituto Federal em Paulo de Frontin estão a um passo do passe livre municipal

Dois tucanos no alto de uma árvore distraem a minha atenção, quando avisto outros cinco voando a minha direita. Uma araucária “atrapalha” minha visão da tal árvore. “Eles gostam das frutinhas que ficam lá no alto”, me explica uma pessoa que percebe meu fascínio, típico de quem está acostumado com pombos e pardais da metrópole.

Seja bem-vindo a Engenheiro Paulo de Frontin.

Essa não é a primeira vez que visito esse lugar, mas é que a primeira vez exigia uma atenção especial. Estudantes do IFRJ haviam ocupado aquela unidade instalada nesse lugar tão pacato. Fui observar a ocupação e contar aquela história pro Brasil inteiro saber que ali também é um lugar de luta por direitos, que nas palavras de um vereador da cidade, “têm sido cortados sistematicamente da população”. Essas palavras eu só ouviria mais tarde, já no final do dia, num verdadeiro clima de festa.

A instalação e principalmente a manutenção de uma unidade do Instituto Federal não é uma coisa simples. Agora imagine a complexidade disso numa cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro. Piore isso com a especificidade do curso: games. Essa foi a ideia louca que o professor Rodnei teve, junto de outros acadêmicos. A primeira vez que o ouvi falar sobre isso foi há alguns anos, numa sessão da Academia de Letras de São João de Meriti. Sinceramente não botei fé nisso. Curso de jogos oferecidos pelo governo federal? Com o pobre e o rico podendo disputar vagas? Balela.

Entrada do campi Engenheiro Paulo de Frontin.

Hoje a unidade tem em torno de 300 estudantes e movimenta a economia de dois bairros da cidade. São milhares de reais movimentados diariamente por ali, e numa matemática rápida descobrimos que a conta fecha na casa dos milhões anualmente. Só que essa rede é bem sensível: por mais que o curso seja gratuito e tenha jovens de todo o país, custos como alimentação, transporte e habitação pesam no bolso dos pais dessa turma. São vários os casos de gente do interior do Brasil que foram aprovados para o curso mas não têm condições de arcar com todos os custos de mudança de estado. Batendo papo com alguns estudantes, descobri um moleque do Pará que estava abismado por ver pela primeira vez na vida um trem funcionando. Descobri uns outros, figuraças, de São Paulo que concordavam que é biscoito e não bolacha. Eles fizeram piada dizendo que não tinha ninguém do Acre, mas um deles interrompeu dizendo que já tinha visto um que veio de lá também. Nem preciso dizer que o mais gaiato era do Rio. “Sou de Vila Isabel”, tenta se defender, antes de começarmos mais uma bateria de zuação. “Os da zona oeste são os piores, cara. A gente já reconhece eles de longe”, ele explica.

Vila Isabel é a terra de Noel Rosa e berço da malandragem do Brasil. Bela defesa.

Uma das várias contrapartidas que Engenheiro Paulo de Frontin pode dar para a manutenção do IFRJ é o custeio da passagem. Enquanto existem alguns alunos que têm até carro, outros vários arcam com o gasto diário de ônibus e contribuem com índices de evasão escolar. E o algoritmo é bem simples: se a evasão tá alta, não tem ninguém estudando, logo, não faz sentido a unidade existir. O Brasil da igualdade tem muitos mecanismos pra um jovem pobre do interior do Pará não poder estudar games no interior do Rio, mas um jovem classe média de São Paulo poder ir pro Vale do Silício e ficar por lá mesmo nos Estados Unidos gerando renda por lá.

Diante disso, os estudantes se mobilizaram para pressionar a câmara dos vereadores da cidade para liberar o passe livre também para eles. Era uma batalha que, na minha opinião, era totalmente perdida: são jovens que não têm título de eleitor na cidade e seus pais também não. Essa lei não ajudaria em nada a trazer votos. Não mudaria, teoricamente, na vida do morador regular da cidade.

Complicado.

A Câmara dos Vereadores fica em cima da rodoviária no centro da cidade. Achei bem bolado.

Na noite de 27 de março de 2017, aconteceu a tão esperada sessão na Câmara dos Vereadores para aprovar – ou não – o passe livre. Entre muitas falas durante o debate, a que mais me chamou atenção foi a do vereador Alex Papa, vice-presidente da Câmara, que com a voz embargada apresentava seus argumentos de olho na figura grande daquela sessão: "Com essa aprovação, Paulo de Frontin segue na contramão de um país que tem cortado sistematicamente os direitos da população". Na sequência dessa punchline, falou dos cortes nos direitos de trabalhadores.

Deu pra sentir o clima pesado no ar.

No final do debate, a votação. A lei foi aprovada por unanimidade, sem nenhuma rejeição. Alguns estudantes, naquele momento, comemoraram aplaudindo e gritando “uhu”. Apesar da quebra no decoro, até o Presidente da Câmara deu um sorriso – afinal, ele sabia que aquilo não ficaria somente ali. Os próprios estudantes se reorganizaram e a manifestação durou apenas alguns poucos segundos.

Foi engraçado, confesso.

Agora a lei segue para as mãos do prefeito canetar o assunto e tornar oficial. Poderá ser o fim da gambiarra de o estudante contar com a boa vontade do motorista em parar e deixar entrar. Na comemoração após a sessão, contamos histórias pessoais nossas. Compartilhei com eles sobre o dia que eu e meus amigos, há muitos anos atrás, fechamos uma rodovia federal para lutar pelo passe livre. Eram outros tempos e vi estudantes levando coronhada de fuzil.

Desci a serra cheio de energia, contagiado por essa nova geração.

A aprovação dessa lei poderá servir como uma espécie de jurisprudência para outras cidades do Brasil inteiro. Só no Rio de Janeiro são 15 campi do IFRJ. Daria pra impactar a vida de milhares de famílias e ajudar a garantir um país melhor pra daqui há 10 anos. Posso dizer isso com a autoridade de quem se beneficiou do passe livre há 15 anos atrás e pôde visitar museus pela primeira vez na vida. O acesso à arte me deu outras perspectivas. Passei a ver a possibilidade de viver daquilo e me desenvolvi enquanto escritor e artista visual. Tirei meu sustento da arte durante a vida adulta. Se o país de direitos iguais não me deu condições de passar nas provas, pelo menos me deu condições para me desenvolver enquanto autodidata naqueles lugares que eu conseguia chegar de graça.

Tudo por causa do passe livre estudantil.

O próximo passo é voltar a Engenheiro Paulo de Frontin, para o que a turma do LDRV chama de “desfecho”. Espero ir lá para apresentar um sarau junto dos meus amigos da Baixada, em solidariedade à luta dessa galera. De repente subir de bonde com uma turma de outros IFs aqui da área. Chamar amigos da imprensa tradicional e independente também, pra contar essa história. Quem sabe o prefeito anima de assinar a lei numa sessão no meio da galera? Não vai garantir votos, mas vai garantir direitos.

Direitos esses que precisam parar de ser cortados do povo.