Foi dada como louca, não clinicamente, mas socialmente. Berê se arrastava entre diferentes rodinhas, à procura do afeto que jamais tivera. Uma mocinha com vestido de renda no meio de gente com a cara amarrada e roupa preta. Berê era doce.
Na manhã daquele domingo, se espreguiçou sorridente pensando em quantas bondades espalharia até o seu destino, um jardim bonito que as pessoas mais cult da cidade iam fazer pique-nique. Sozinha, arruma sua bolsa. Prepara os biscoitinhos e vai cantarolando.
O caminho, que ela faz questão de seguir a pé, traz lembranças de uma vida bandida, roubando a atenção de gente tão desconexa quanto o CD mais novo do seu artista favorito.
Ahhh… O jardim… Aquelas famílias bonitas montadas no amor… Passarinhos cantando entre as árvores, que por sua vez montam belas sombras para a instalação das toalhas vermelhas. Suquinho de maçã.
Berenice estende sua toalha xadrez e distribui carinhosamente o chá, o suco à base de soja, os pãezinhos e as memórias de uma moça que já não estava em lugar algum.
Berê foi encontrada duas semanas depois com o corpo já podre numa trilha qualquer.