O triunfo do ‘homovirus’

Levaram Mateuzinho às pressas pra emergência. “Mas mamãe, é só uma tosse”, ele esperneava, enquanto Dona Gerusa reclamava com o marido, Seu Benedito, da lentidão do seu Chevette 86 seminovo na estrada de terra.

Dona Gerusa e Seu Benedito são o típico casal ‘padrãozinho’ brasileiro. A mulher analfabeta, o homem sabe ler mas não consegue escrever. O filho estuda e sabe a capital dos estados do sudeste – menos a do Espírito Santo. Cor? Nenhum dos três sabe qual é sua etnia. “Uns falam que a gente é preto, outros que é branco. Eu não acredito nesse negócio de cor, eu sou é brasileiro”, Seu Benedito sempre responde, inflando o peito.

Chegando no hospital, o médico pede pra Mateuzinho botar a língua pra fora. Com um palito meio sujo ele cutuca a boca do menino, abaixa a cabeça, respira fundo e se vira pros pais:

“É virose. Viado”.

Os pais entram em desespero. Mateuzinho aos 11 aninhos diagnosticado com ‘homossexualismo’. Ao final da consulta, a receita continha dois supositórios, uma revista de mulher pelada e uma quantidade x de vídeos pra ele ver.

Foram pra casa perplexos.

“Mãe, é só uma tosse”, Mateuzinho continuava. Mas seus pais, padrãozinho brasileiros, sequer escutaram o menino. Trataram de comprar os remédios, botaram a tal de internet em casa e deram privacidade ao rapazola.

Na escola, vários meninos também foram diagnosticados com o ‘homovirus’. E começou a ser um tal de menino indo pra escola de saia, menina comentando os lançamentos de caminhões, que a diretoria já não sabia mais o que fazer. Na hora de fazer a fila, tinha a dos meninos a das meninas e a dxs meninxs.

‘O mundo é gay’, Seu Aristarco – coordenador pedagógico – falava pra si mesmo, resignado.

A essa altura do campeonato os conservadores já teriam pedido intervenção militar ou alguma outra medida mais dura contra isso.

Mas eles estavam felizes demais vendo o sonho deles se realizando: a ditadura gay finalmente triunfando e eles podendo sair às ruas se expressando com seus corpos brancos em roupas coloridas e sinais de afeto nunca antes vistos na história desse país.

Enquanto isso, Mateuzinho comprava escondido um espectorante pra curar sua tosse.

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* Nota do autor: homofobia é doença.