O tamanho do amor dá um certo medinho mesmo

(chez le pere lathuille, 1879, Édouard Manet)

Medo. Cê não sabe o dia, local e hora que, catapimba!, vem o cupido e te dá um pescotapa bem dado. Cê fica tonto. Olha em volta, se pergunta de onde veio e quando menos espera, toma-lhe flechada. A gente parece estar ficando profissional nesse negócio de se desviar das possibilidades, né.

É que o tempo tá curto, daqui a pouco vem Natal, ano novo, caramba e ainda estamos em abril mas já tem que ver como vai ser aquele negócio que tá marcado e tal, daí quando a gente menos vê já virou o ano.

Correria.

Na real, a gente que tá com o coração “disponível” para novos inquilinos, tá cheio de medo de disponibilizar o espaço pra locação. Alguns até se aventuram em receber umas visitas e tal, mas nada sério. É que dá um medo danado do locatário virar proprietário, dependendo do desenrolar das coisas. Vai que estragam as estruturas, né?

Esse negócio de amor é meio complicado mesmo. Dá medo porque é uma coisa maior que nós. Tá escrito que Deus é amor: imagina então o que é sentir Deus quando pensa em alguém?

Responsa.

O mais sublime de todos os sentimentos vai além da compreensão e muito além do pescotapa angelical. A gente constrói com o tempo, né. Antes tem o lance da paixão, de dar sorrisinho bobo, tem todo um ritual que a galera segue antes de amar. Tipo um jogo.

E me irrita profundamente a ideia de que pra alcançar o amor a gente precisa seguir um roteiro pronto. Eu olho pra menina, ela finge não ver. Aí tenho que olhar de novo pra ela me olhar de rabo de olho. Aí tem o lance do sorriso. Puxa um papo bobo, alguma amenidade, pra “ver se dá química”. Tem o lance também de, depois de algum tempo de conversa, tocar na pessoa, tipo mexer no braço. É uma verdadeira dança do acasalamento que impõe papéis e personagens.

Monótono pra chuchu.

Gosto do desafio de sair do lugar comum. Gosto de me ver sem resposta, de me sentir envolvido, de desbravar um universo. Gosto da possibilidade de não ter que seguir o roteiro com uma garota. Gosto que as coisas não sejam complicadas. Que a gente arranje tempo. Que o cupido acerte um tirambaço daqueles. Que ele me deixe rodopiando e nem espere eu controlar a respiração pra me flechar.

Catapimba.</p>