Há três anos escrevo uma crônica no finalzinho do ano tentando prever algumas coisas para o próximo ciclo anual. E olha que acertei na maioria das vezes e o texto sempre divide algumas dicas e polêmicas. A parte curiosa é que ela só é escrita depois de encontrar com o Heraldo HB* e validar essas visões, além de pegar outras com ele.
Esse ano o encontro foi depois do lançamento do livro do André Oliveira (Manual Prático para uso de Objetos Sensíveis). Nos sentamos no bar em frente a Lira de Ouro e o dono, o Luis, lembrou da minha carinha gorda após tantas edições do Mate com Angu em que fui lá bater cartão. O papo desse ano rendeu a pontuação de três desafios:
Antes de falar sobre cada um, preciso reforçar algo que você lerá nas linhas a seguir: 2017 será um ano sem dinheiro na pista e precisaremos ser muito mais criativos para arranjar grana. Isso vai implicar numa série de fatores e um deles, o mais delicado, será a tal “união da classe”. Pois é, a indústria criativa precisará se organizar de verdade e parar de fazer cultura pra cinco amigos enquanto empurra goela abaixo do povo que só existem esses amigos fazendo alguma coisa.
Foi mal.
Uma vez, almoçando com a Fernanda Braga (então Secretária de Cultura de São João de Meriti), escutei a seguinte frase: “parece que a gente vive em guetos, né? Cada um no seu pedaço sem frequentar o do outro”. E eu concordo. Fico pasmo quando visito algum evento e não encontro pessoas que se dizem defender a Baixada (e a rua). É cada um no seu pedacinho, vivendo numa bolha, fortalecendo só o que é seu.
Senti isso na pele ao realizar 36 edições do Sarau do Vulcão. Sim, TRINTA E SEIS. Mesmo todos nós 5 frequentando diferentes lugares e até sendo vistos juntos em alguns deles, vimos muito poucos atores da cena cultural da Baixada ir na nossa parada. O que impressiona é que todo mundo diz “vi uma foto sua no sarau” ou “ah quando vai ter aquele sarau?” – mas ir mesmo, que é bom, nada. Fizemos um sarau com cara de programa de auditório, super interativo, para um público totalmente novo que sequer sabe o que é sarau. Infelizmente poucos colegas da cultura da região entenderam a proposta.
O reflexo disso é a lotação cada vez menor em vários rolês. A gente fala tanto de rede, mas na prática não vê isso acontecer. São sempre as mesmas pessoas fazendo as mesmas coisas para os mesmos públicos.
A galera tá esquecendo que a Baixada Fluminense tem uns 4 milhões de habitantes. Não dá pra gente ser conhecido só por alguns milhares de pessoas.
Por mais que a gente levante bandeiras importantes, essa falta de vontade em chegar no público final só serve pra esvaziar o rolê e diminuir o poder político da cultura no nosso território. A galera perde público e alcance, mas não perde o discurso que aprendeu na PUC (ou com os colegas que estudam lá). Preferem repetir uma mensagem usando palavrão pra cinco pessoas do que levar a mesma mensagem sem palavrão pra cinco mil. E quando digo “poder político” não estou falando de eleições: trata-se da garantia de verba para o setor, da desburocratização de processos para usar o espaço público e o acesso a recursos que são nossos direitos como limpeza e segurança.
Esse talvez tenha sido o ponto que mais rendeu no papo com o HB. Nos questionamos sobre o quanto nós circulamos. É muito bonito a gente falar sobre “a rede”, mas será que a gente tá mesmo conectado? Será que a gente tá disposto a convidar pessoas novas para compôr a programação das coisas que fazemos? Será que a gente repassa trabalho pros coleguinhas? Será que a gente divide o protagonismo ao invés de ficar com toda a atenção pra si?
Uma coisa que aprendi esse ano foi que precisamos entender nosso lugar de fala. E tem vários lugares que não são nossos, por isso, temos que usar e abusar da nossa rede. Quanto mais pessoas convocamos para a produção de algum projeto, maiores as chances dele dar frutos e compartilhar conhecimento, contatos e até dinheiro. Me ouçam: não dá pra ganhar dinheiro SÉRIO sozinho. Tem que repartir.
A Claudinah Oliveira me disse várias vezes: “As pessoas pensam que se o pirão é pouco, a farinha delas vem primeiro. Mas elas não entendem que tem muita farinha e muito pirão por aí! A gente precisa saber compartilhar!”.
Ubuntu, gente: eu sou porque nós somos.
Esse ponto sempre foi delicado. Como apontar uma pessoa ou outra como referência em economia criativa se ela mesma não vive deste setor e tem emprego fixo? Por outro lado, como levantar grana pra um setor totalmente marginalizado e que é sempre o primeiro a sofrer cortes quando o bolso aperta?
É um ciclo infinito, onde o produtor não produz, o público não compra e o contratante não contrata. O público quer mais oferta, mas quando ela chega, vem com pouca qualidade. A produção não faz algo bacana porque investe seu tempo no emprego fixo e usa o que sobra pra produzir. O contratante, vendo esse esvaziamento, perde a fé. E perde mesmo. Quando a gente fala da importância da cultura da Baixada Fluminense e não tem nem noção do que é a Baixada Fluminense, paga um mico muito grande na hora do vamovê.
Em 2017, vai fazer dinheiro aquele que conseguir chegar no público final.
Se quisermos ver nossas ações rendendo grana, vamos ter que sair da caixinha. Quem montou um pé-de-meia mínimo pra investir no ano sinistro que se aproxima vai se dar bem. Será um ano para explorar o máximo de fontes de receita diferentes: camisetas, canecas, acessórios, bilheteria, bar, alimentação, produtos digitais…
Parece fácil mas não é. Porque as pessoas só vão querer camisetas bonitas, ou seja, precisaremos de designers. Só vão querer bebidas bacanas e os drinks têm muito valor agregado, ou seja, aquele seu amigo barman precisará ser acionado. E não adianta, pra cobrar ingresso tem que valer a entrada, então é hora de arregaçar as mangas e contratar, eu disse contratar bons artistas – desde as atrações à agência de publicidade que vai divulgar seu trabalho.
O próximo ano só vai dar certo se a galera ampliar seu alcance em todos os sentidos e operar ainda mais em rede.
Isso faz pontuar a loucura máxima que HB e eu encontramos. A gente precisa de um mega evento produzido em rede. Algo de grande alcance, autogestionado e bem planejado. Que esse mega evento sirva para o setor da cultura se conhecer e experimentar o trabalho em grupo com pessoas novas, mas ao mesmo tempo também sirva para alcançar o público final e trazer as pessoas para si.
E a gente nem precisa reinventar a roda: o Dia da Baixada (30/abril) este ano vai cair num domingo. Será um ano perfeito para pensarmos este grande dia a partir de agora, usando o mês de janeiro para construir um formato grande, fevereiro e março para buscar parcerias e finalmente o mês de abril para divulgar ao máximo, no maior número de canais possíveis e chegar na população.
Quando o povo conhece o trabalho dessa cena marginalizada, ele fica maravilhado e segue nas redes sociais. As quase quarenta edições do Sarau do Vulcão me provaram isso e passei a ver muita gente do povão que volta para nos assistir.
Precisamos estourar a nossa bolha por vontade própria.
* Heraldo HB é ativista cultural, atuante em Duque de Caxias. É conhecido pela fundação do Cineclube Mate Com Angu, um dos mais importantes do país. Ele é editor da Lurdinha, mas não conta pra ninguém: lurdinha.org. Siga o HB no Facebook: facebook.com/botocudo.