O quase-corno quase-homem

Safada. Aquele par de jabuticabas que acredita-se ser dois grandes olhos em seu rosto fitavam com desejo ardente a pele do moreno debaixo do sol.

Lurdinha era branquinha, cabelo escorrido, perfil angelical, prometida para Adamastor – rapaz inteligente, de boa família, respeitador que só ele. Lurdinha era tão pura que emitia luz!

Pois na tarde daquele fatídico domingo, a moça anelava com profunda vontade de morder cada pedaço do homem que cuidava do jardim. Ali mesmo, suado, fedendo a macho. Lurdinha queria luxúria.

Não demorou para que Adamastor chegasse de leve para carinhosamente lhe dar um sustinho, coisa de enamorados. Mas o infeliz percebeu a cena que se seguia: Lurdinha abanando-se na varanda, cada vez mais ofegante, enquanto o mulato terminava seus serviços.

Adamastor não reagiu. Nada disse. E a vida seguiu. Dali em diante o gentil homem branco foi-se tornando desconhecido.

Certo dia, o ex-panaca declamou um poema. Lurdinha sorria entre os dentes, forçando achar linda a cena de amor.

– Pára de fingir que me ama, mulher – disse Adamastor com olhos fixos nas jabuticabas da noiva.

– Mas te amo, meu benzinho.

– Não me chama de “benzinho”. Não me chama de nada.

– Que houve meu amor?

– Não houve. Vai haver.

E ali mesmo, sob o pé de manga, Adamastor avançou sobre Lurdinha, pela primeira vez na história, num ato selvagem e nada esperado de sua fina pessoa. Beijou-a, mordeu-a, puxou-lhe os cabelos. Por alguns instantes pensava “agora ela me larga, não sou mais seu poeta, não sou mais aquele que ela amou. Mas que se dane, sou homem e quero o que é meu. E essa mulher é minha”.

Assim foi Adamastor, seguido apenas pelos seus instintos, pouco ligando para o futuro da sua relação, e mordia cada vez mais cada parte de Lurdinha, que respondia com gemidos e pequenos “não” entre os dentes.

Neste dia o menino aprendeu que quando uma mulher diz “não”, ela quer dizer “mais”. Aprendeu que um homem tem que ser belo como uma flor, sim, porém forte como uma tora.

Lurdinha nunca mais lembrou-se do moreno.