O poema crônico

Dane-se, eu perdi o gosto, eu perdi a cor, eu perdi a coisa toda pensando em você, ou melhor, em estar sem você. Era pro sol apagar, pro céu desabar, pra lua explodir, pras estrelas cair.

Porque a safada da vida só me deu meia garrafa de pinga e um papel em branco. E disse: “te vira, ô-tário”, enquanto arrancava com seu carro zero, comprado às custas das minhas angústias em não te ver. Em não me ver. Em não nos ver. Em não ver.

E se homem não chora, Pablo, me declare um rio. Me declare qualquer outra coisa porque eu realmente estou indo embora, sem nenhuma mala lá fora. Só sei que vou me deixar. Porque não faz nenhum sentido eu ficar aqui sem gosto, sem cor, sem nada.

Se meu ombro tivesse as mãos dela ao invés de um cachecol velho, se meu ouvido tivesse a voz dela ao invés de um Coltrane meio desafinado, se meu coração tivesse amor ao invés de sangue, aí sim, isso aqui seria uma poesia.

Mas não é.

Não aspira a gênero, não aspira a estilo, não inspira a nada. Só á aí consumindo bytes.

Hoje morri literariamente – sabe-se-lá se literalmente.