Dane-se. Eu perdi o gosto, eu perdi a cor, eu perdi a coisa toda pensando em você, ou melhor, em estar sem você. Era pro sol apagar, pro céu desabar, pra lua explodir, pras estrelas cair, pro vulcão irromper. Mas eu insisto em acordar de ressaca, com o cosmos assistindo meu fim, afogado em doses de angústia.
Porque a safada da vida só me deu meia garrafa de pinga, uma caneta e um papel em branco. E disse: “te vira, ô-tário”, enquanto arrancava com seu carro zero, comprado às custas das minhas angústias em não te ver. Em não me ver. Em não nos ver. Em não ver.
Eu ajeito meu óculos tentando te enxergar. Eu acordo de manhã tentando lembrar do teu cheiro. Eu abraço as pessoas tentando me encaixar do jeito que te encaixo em mim. Eu boto foto no instagram em preto e branco porque você levou minhas cores embora. Eu perdi o gosto, eu perdi a cor, eu perdi a mim mesmo pensando em você, ou melhor, ficando sem você. Já não faz nenhum sentido eu ficar aqui sem gosto, sem cor… Sem mim.
Se meu pescoço tivesse as mãos dela ao invés de um cachecol velho fedendo a naftalina, se meu ouvido tivesse a voz dela ao invés de uma Etta James já cansada pela idade, se meu coração tivesse amor ao invés de sangue, aí sim, isso aqui seria uma poesia.
Mas não é.
Não aspira a poema, não aspira a crônica, não inspira a nada. Só serve pra atrapalhar o sarau.
Hoje morri literariamente – mas desconfio também que literalmente.
“Te vira ô-tário”