O ovo no asfalto

Quarenta graus na rua e um frio do ártico no coração. Ribamar subia a ladeira quando avistou o boteco – cenário constante das suas aventuras. Resolveu parar.

O calor infernal amontoava as pessoas na sombra quente. A brisa se tornava uma ferramenta de tortura quando empurrava o bafo esturricante para dentro do estabelecimento. Calor humano. Calor do vento.

A única coisa que se aproximava de algum frescor era a garrafa de cerveja, melhor amiga até dos menos chegados ao álcool. Até Ribamar, prostrado e resignado, mergulhou num copo. Traiu seu amor pela pinga.

Gelo e limão. Um gordo sorridente sai de dentro da cozinha anunciando a pausa para a felicidade: o safado preparou um litro de caipirinha com cachaça ruim. Com todo mundo bêbado seria mais fácil empurrar a comida fedorenta que aquela cozinha gordurosa preparava.

Ribamar descia absolutamente tudo que aparecia em seu copo. Esqueceu de subir a ladeira. Esqueceu onde estava. Esqueceu até do que já nem se lembrava. Estava oficialmente largado.

Um bêbado resolve fritar um ovo no asfalto. Torcida, gritaria, e Ribamar já se deitando na cadeira. Bêbado de bebida, trêbado de calor.

Acordou com a gritaria: “frita!”. E pulou, sem pensar, no ovo de asfalto.

Três pontos na boca, aplausos e nenhum pingo de arrependimento.