O olhar que traía o corpo

De menina, apenas o nome e a voz. Mentira: os sonhos impossíveis, a ausência de planos, os risos que se escondem com a boca colada nos ombros e um tanto de coisas entregam a meninice de Berenice.

Mas o olhar não.

Maquiada, é mulher feita. De corpo, um mulherão. Berê se olha no espelho. Os seios já maduros brotam sob a blusinha fina, arrancam até um sorriso. Um sorriso de menina, é claro – um sorriso ingênuo que contrasta com o olhar.

E que olhar.

Na rua, Berenice esconde seus amores, esbanja simpatia e até uma sensualidade. Mal sabem os rapazes que ela ensaia o caminhar em casa, frente ao espelho sob o olhar atento do seu ursinho. Ensaio este que funciona, deixando um rastro de suspiros por onde passa.

Mesmo linda, jovem, praticamente gostosa, sem nenhum perdão da palavra, Berenice mastiga amargura. Uma tristeza inexplicável, que os olhos não dizem.

Ah os olhos…

Os homens que Berenice teve foram hipnotizados com aquele olhar. Não se deram conta que Berê era uma moça frágil e sonhadora. Decifravam errado a mensagem de seu corpo e quando entendiam tudo, já era tarde demais para passar cola no coração quebrado da moça.

Do amor, lhe restaram lágrimas.

Diante do espelho novo com moldura branca, se olha e pensa nos homens que teve e que não teve. Percebe, então, que suas lindas curvas estão lhe traindo.

Sentido faz: cabecinha de moça, corpo de mulher. Homens nunca se interessavam, de fato, nos seus sonhos mirabolantes, na sua garra e na sua capacidade.

Berê virou uma gorda feliz.