O ninho da morte

Faltava pouco para os cânceres de Ribamar se unirem e formar uma coalizão, travando não uma batalha, mas uma destruição completa do que restava do corpo do moribundo.

Ribamar está deitado com sua camisa rasgada e jeans velho, fedendo a merda, acompanhado de moscas e ratos, sob o teto enferrujado do Chevette abandonado naquele beco à meia-luz.

Cheiro de pus.

São nove da noite e ninguém vai sentir sua falta. Um mendigo a menos pra poluir as calçadas que as madames usam com seus poodles e sapatos escrotamente caros. Enfiado naquela carcaça embebida no tétano, Ribamar não sente mais falta de si. A respiração é lenta e involuntária. Fraco, com a perna direita dormente, não consegue sequer atirar-se pra fora do seu ninho da morte e esboçar uma reação.

Ribamar aceita, de peito aberto, a morte que se aproxima.

Dois ratos brigam por um pedaço de algo podre que Ribamar não faz esforço pra ver. Esforço. Se tivesse feito algum, não estaria agora nesse estado deplorável. Verdade seja dita: ele já estava assim por dentro antes disso tudo. Mas isso não importa mais. O pus não importa mais. Os ratos e a ferrugem não importam. O beco não importa. Nada importa – nem a garrafa de cachaça pela metade, descansando a um palmo da palma de sua não esquerda.

Cheiro de pus. É hora de partir.

Enquanto sente seus pés ficando gelados e a morte ligando a seta para estacionar, Ribamar fecha as mãos. Depois cruza os braços e tenta ficar em posição fetal. Está agora no útero de sua mãe. Protegido. Alimentado.

A morte desliga o motor.

Fecha os olhos e vê sua vida passar num flash. Há imagens de amor, cânticos de paz e abraços. Talvez já inconsciente, cerra ainda mais os punhos e sente seu corpo levitar. Ribamar percebe que não há mais chão. De repente, tudo macio e quente. O útero. O feto. É o fim, em paz, no que parece o banco traseiro de um carro.

Naquela noite, a morte salvou sua vida.

(Agora imagina, no lugar da morte, alguém de preto, bem dark, colocando-o numa ambulância)