O filme italiano

“Allora”, dizia o personagem na TV, seguido de gargalhadas. Estragou nosso clima, acabou com a briga e nos entreolhamos. Disso foi um pulo pra gente dar aquele riso bobo que a gente sempre troca quando só a gente entende a piada.

“Allora”.

A água na panela vermelha já tá fervendo e corro pra cozinha. O assunto tava sério, até esqueci de cortar os tomates. Cê nem ajeitou os cabelos, tava no sofá falando alto comigo e eu preocupado com as cebolas. Cê sabe, né, que amo cebola.

Se tem uma coisa que eu não gosto é te ver assim chateada. E se tem outra coisa que não gosto é de errar o ponto da massa, te fazer experimentar um macarrão fora do ponto, sem o tomate cortado cirurgicamente e a cebola meio crua. Eu sempre deixo queimar um pouco da manteiga, cê nem imagina que meu segredo é esse.

Ainda bem que não teve lágrimas dessa vez. Nem minhas nem suas. Eu sinceramente nem me lembro mais porque estávamos discutindo, talvez fosse a hora que cê chegou do trabalho ou porque eu demorei pra ajeitar a mesa. Eu sei, eu sei, era uma noite especial. Mas sente só o cheirinho aqui, ó, piquei o alho enquanto o macarrão curtia uma sauna quente na panela. Hoje você não precisa lavar o macarrão pra mim enquanto refogo o molho, deixa comigo. Faz lá o cabelo do jeito que cê queria.

Cheirinho de comida saindo da cozinha, cheirinho de camomila na sala. E no banheiro. Nosso chá até esfriou enquanto a conversa esquentava, mas esse teu sabonete de ervas é o máximo.

Ó, tá pronto.

Não ficou perfeito, me desculpa. Eu não sou perfeito. A gente não é. Acho que errei o ponto da cebola, não pegou aquele meio agridoce que a gente gosta. Tá na hora da janta. Vamo brigar mais não? Isso muda muito o gosto da massa. Vamos voltar pro filme italiano.

Teu cabelo ficou lindo.

“Allora”.