O desodorante barato, comprado num camelô qualquer, não disfarça o bafo de cachaça do pobre Ribamar. O que deveria encobrir o crime etílico só serve para acentuar seu estado deplorável. Ribamar é o mendigo mais cheiroso da Estação Central.
Sentado no meio-fio, o rapaz de trinta e poucos anos olha pra o chão, com dificuldade para não babar, concentrado em manter-se calmo. Seu corpo está gelado.
Ribamar olha o céu. Cadê os pássaros? Só pombos. Malditos pombos. De repente, uma silhueta negra cruza o céu e arranca um movimento do bêbado. Ele aponta. E com seu indicador faz como um maestro, enquanto sussurra um samba qualquer.
Por um instante, sente saudades de ficar sóbrio. Em meio a pensamentos desconexos, ele tenta descobrir como chegou na Estação. Teria sido de trem? A pé? De carona na carrocinha que cata mendigos? Junto de suas saudades, chegam também as lágrimas: uma gota para cada memória. “Daria pra encher um copo com elas”, ele pensa.
Copo?
Ribamar bebeu o desodorante.