Na outra mesa

Aquele teu olhão me encarando e deixando tão sem reação era tudo que eu precisava pra continuar respirando. O problema é que me faltou ar, me fugiram as palavras e até o sorriso ficou tímido diante de você, ali, sentada no deck seco do restaurante razoavelzinho, instalado naquela praia nem cheia nem vazia.

Tava de noite.

Justamente quando meu coração tava todo quebrado e eu clamei aos céus por uma chama de vida, você me encarou cheia de luz. Eu brilhei. Virei estrela, de tão importante que me senti. Cê me deu um sorriso, eu te dei um abraço. Cê me deu quarenta e cinco segundos de felicidade, eu te ofereci batata frita.

Naquele minuto te olhando descobri que eu ainda era um menino e que eu nunca, mas nunca mesmo, aprendi a reagir diante de uma mulher. Okey, talvez eu já tenha me saído melhor noutras vezes noutras mulheres neutras. Contigo não dava pra disfarçar minha meninice. E se outrora eu gaguejei diante de outras mulheres, dessa vez eu me sentia mais seguro que a vela que eu segurava diante dos teus amigos e um possível namorico teu que me pedia licença. Ops.

Sentei na outra mesa.

E ouvindo tua voz, te admirando de canto de olho, eu cacei palavras, juro pra você que cacei palavras pra falar contigo. Cê tava ali num raio de metro e meio do meu alcance. Talvez sentisse meu perfume doce, talvez não. Talvez não tenha ligado pro meu olhar triste e cansado. Talvez eu só precisasse mesmo me mexer e tentar conversar contigo algo mais profundo do que as amenidades que os estranhos teimam em conversar para criar afeição. Nem precisava, só teu olhar já era o afeto que eu queria.

Você se levanta.

Tão rápido quanto minha felicidade, foi ver você partir. Peraí! O que faço Tchau, mulher. Lá se foi uma paixão. Cá ficou um coração. Ou melhor,

ele ficou na outra mesa.