Fusca de casal

O amor é lindo e aleatório. Muito aleatório.

Osvaldo conheceu Virgínia na traseira de um Fusca. “Ela não me dava ideia”, ele sorri durante a entrevista, tentando disfarçar as bochechas coradas. Virgínia ajeita o cabelo olhando pela janela enquanto a memória daquele dia começa a surgir.

Arandir, amigo em comum de Osvaldo e Virgínia, havia acabado de reformar o fusca e queria uma viagem inaugural épica, digna de filme de romance. “Tu vai gostar da viagem, posso garantir!” exclamava um Arandir animado esfregando as mãos, enquanto Osvaldo ficava apenas cabisbaixo, já desacreditado da vida.

Dois dias depois do papo no boteco, Osvaldo chega no endereço combinado. A porta do fusca já estava aberta e ele percebe aquela silhueta lá dentro. “Que droga”, ele pensa alto enquanto passa a mão na boca para ninguém perceber o que diz. A esposa de Arandir o recebe com os braços abertos e sorriso no rosto. Daqueles sorrisos que vão de orelha a orelha e fazem covinhas até em quem não ganhou este dom divino – e convenhamos, um dom muito charmoso.

Arandir gira a chave enquanto Osvaldo põe a cabeça pra dentro do carro. Eis que a silhueta toma uma forma. Estamos falando de uma forma loira, de cabelos soltos e vestido florido. Uma moça sorridente, que o recebe também com covinhas e um “bom dia” que parecia o canto dos anjos.

Parecia. Mas não era.

O número par de pessoas sobe a serra, num papo cruzado. Meninas falando com meninas e meninos com meninos. O motorista, precavido, evita muito papo. Osvaldo já reduz as palavras antes mesmo de começarem a subir. Num dado momento só restam as palavras de Virgínia e a amiga, esposa de Arandir.

“Vamos almoçar assim que chegarmos?” – pergunta Arandir à sua mulher, o que resulta numa estranha briga. Resta o silêncio no banco de trás. Oliveira, encantado com a moça ao seu lado, tenta sorrir pra ela, que responde dando de ombros.

“Quando afinal vocês se conectaram um com o outro?” – o terapeuta interrompe a história. E ambos respondem ao mesmo tempo, cada um com uma versão:

– Com o tempo, depois de enxergar aquela mulher incrível por trás de tanta beleza
– Na primeira vez que o vi, coçando a boca antes de entrar naquele carro

Silêncio.

Osvaldo deixa escorrer uma lágrima, enquanto Virgínia lentamente abre a boca.

O terapeuta percebe o clima estranho da sala. O casal em crise após anos juntos. Uma história marcada por desencontros. Os gostos tão diferentes um do outro. O acaso da vida juntou duas pessoas que viviam momentos distintos da vida: Osvaldo totalmente perdido e Virgínia totalmente empoderada.

Mais silêncio.

Algumas palavras do terapeuta depois, a porta se abre e o casal sai do consultório, enxergando claramente que cada um tem seu tempo.

E eles resolvem a crise de casal comprando um fusca.

Pena que discutiram pra escolher um restaurante.