Fui parar em Queimados pra curtir o show do Djonga

“Fiquei sabendo que Baixada é cruel, hein!”, Djonga exclama, arrancando gritos da galera. Mas como ele ficou sabendo disso?

Vem comigo.

Dia de jogo do Mengão, a maioria das pessoas concentrada do feriadão de início de mês proporcionado pela farsa da independência – há quem diga que foi em julho, mas enfim. Nesse contexto de celebração do proletariado, o rapper Djonga preparou sua primeira apresentação na Baixada Fluminense.

O BATIDAS & RIMAS, que trouxe esse show, é de Queimados. Isso é mais importante do que parece: a cultura hiphop é originalmente do gueto, então imagina isso acontecendo no gueto do gueto? B&R já é a pura resistência só pelo local. Mas além disso, ao longo de anos essa turma liderada pelo Romildo realiza atividades de rua, caçando e valorizando talentos locais. Esse ano a pegada envolve trazer um artista de fora da cidade e rechear de artistas locais – assim a galeria sacia a vontade de curtir um show diferente e ao mesmo tempo cria-se um palco para os nativos.

Beleza.

Djonga chegou em Queimados durante o set dos caras da Kick’z. Pedro‘Dog’ (meu parça da Batalha Do Real) e Donnie Jay largavam o dedo entre funks antigos, muita música Black e outras paradas. Aqueles pique.

Resolvi recepcionar o convidado mineiro e sentei do lado dele pra trocar ideia. Ele é apaixonado por funk e tava na Terra Prometida.

– Cê tá ligado que o berço do funk carioca é aqui? – perguntei.
– Sério, mano? – Djonga me responde
– Sim, pô. Aqui o bagulho é de verdade
– pô, muito maneiro ver o baile de rap tocando funk, a galera curte mesmo né?
– mano, pra nóis aqui tem uma frase que a gente leva a sério, que veio do funk
– É mesmo? Qual?
– “Baixada é cruel, os sinistro são de Bel”
– Ainda não conhecia
– Tá ligado no Marcão Baixada?
– Claro, me amarro
– Então, ele fala disso na música
– Pode crer! É verdade, é mesmo
– Essa parada pra gente é muito importante

Djonga ficou pensativo. E o baile rolando, aquelas pessoas gritando sem parar, numa energia que nenhum outro lugar do país tem.

Só quem é da Baixada vai entender a beleza disso tudo. Da energia. Da crueldade. Da dor de não fazer parte da cidade mais bonita do mundo. Da violência que é ser o patinho feio.

E o hiphop chega nesse lugar repleto de homicídios não solucionados. No lugar onde realmente uns acham engraçado zuar viado. E a galera realmente acha engraçado racista baleado. Aqui é onde o filho chora, a mãe vê, e nada pode ser feito. Morrem 15 de uma vez sem troca de tiro.

– Lá em Minas a polícia já chega atirando – Djonga continua
– Caraca, mano – eu respondo
– Lá a rapaziada não tem fuzil igual aqui. É bem menos.
– Pois é, aqui eles não podem fazer isso, que dá ruim. Mas estão oprimindo todas as rodas, não tá dando pra fazer as paradas na rua como antes
– Que droga, hein?

A pizza chegou e deixei ele à vontade pra comer e relaxar.

O show do Djonga é uma experiência incrível. Não tem vários momentos, como a maioria dos shows têm, entre músicas cheias de vivacidade e outras mais lentas pra chegar na gatinha – ou no gatinho. Djonga é outro papo: ele repete incansavelmente “fogo nos racista”. Ele deixa claro que esses caras babacas que batem punheta na frente do espelho não merecem respeito. O show tem essa energia. O tempo inteiro lá em cima. O tempo inteiro a galera se empurrando, pulando, gritando.

Depois de inflamar a galera com o ‘Baixada é cruel’, ele vira pro lado e aponta pra mim, dando uma risada. Eu retribuo com uma risada e me convenço, de uma vez por todas:

Djonga é sensação.

Sensacional.