Há uns dois meses atrás almocei com o professor Rodney, diretor do IFRJ de Paulo de Frontin. No papo, ele me falava empolgado enquanto mergulhava num petit gateau sobre sua maior realização até então: a implantação de um campus do Instituto Federal que oferecia a formação em games. Confesso que a primeira vez que o escutei falar disso, há mais de um ano atrás, fiquei muito descrente. No entanto, nesse dia eu estava especialmente curioso sobre o assunto – eu havia acabado de assistir o documentário “Indie Game: The Movie”.
http://www.youtube.com/watch?v=Mxbs3a2Jf70
Depois de entender a possível revolução que essa parada poderia trazer pra cidade de Engenheiro Paulo de Frontin e pro mercado de jogos no Brasil, putz, ficou claro pra mim que eu deveria ir lá conhecer a unidade.
Depois que o Temer assumiu o governo, a coisa ficou complicada pra classe trabalhadora. Uma série de direitos começaram a ficar ameaçados. Votações muito estranhas começaram a entrar em pauta, mas uma delas apertou o calo do setor da educação: a PEC 241. Resumindo, ela corta os investimentos em setores essenciais – um deles a educação. Na prática, isso significaria um montão de cortes. Nem preciso dizer que um curso de games estaria no topo da lista.
Estive na ocupação do IFRJ em Nilópolis, bem rápido, enquanto eu ia num evento aberto à população. Gente pra caramba, muita preocupação com segurança e em respeito à troca de ideias que tive com alguns estudantes, vou me limitar apenas a dizer que estive lá bem rapidinho. Mas esse pouco tempo me deixou muito curioso: como é que essa galera, essa geração, tá se articulando? Será que muita coisa mudou desde os quinze anos atrás, quando eu era do movimento estudantil? Quer dizer, será que a galera está mais organizada ou menos organizada? No meu tempo éramos uma meia dúzia que puxava a galera e as lideranças eram muito claras, era tudo bastante vertical e os próprios estudantes preferiam assim – eram raros os que queriam algum compromisso.
Fiquei com isso na cabeça.
No dia 20 de outubro meu telefone toca. É uma semana incrível, com alguns grandes projetos sendo entregues e outros iniciados. Estou tenso, pra ser sincero, e quando ouço o telefone tocar só consigo imaginar uma coisa: “duvido que seja um convite pra dar um baita rolê nessa sexta”. Era o único dia que eu teria livre – até o domingo estava comprometido.
– Rodney?
– Grande Wesley! Vou te apresentar a uma pessoa, segura aí na linha
– Alô?
– Oi, é o Wesley? Aqui é o (…). A gente tá ocupando o IFRJ aqui em Paulo de Frontin e o diretor havia falado de você conosco antes.
Trocamos ideia. Fui convidado pra fazer uma visita e aproveitei a carona com o Rodney. A ocupação havia começado naquele mesmo dia e seria uma oportunidade bacana pra acompanhar esses primeiros passos. Marquei pro dia seguinte com todo mundo.
Partiu, Sul Fluminense.
Muitas curvas na estrada e algumas cidades depois, chegamos. Rodney me levou pra conhecer alguns picos da cidade e deu pra notar sinal de wifi liberado em alguns lugares – é o tal do Cidades Digitais rolando. No campus, que tem mais ou menos 300 estudantes, haviam apenas uns 12, mais ou menos. Portão trancado, brota um rapaz de cabelo amarelo para abrir o portão. Deixo meus dados na entrada com um outro rapaz que usava um computador com mouse de gamer, daqueles que eu fico só paquerando na loja mas nunca tenho coragem de comprar.
Um outro estudante me leva para conhecer as dependências da unidade. Ele usa um óculos estilosíssimo e tem aparelho nos dentes. A cada novo local que vamos, ele usa termos como “desbloquear esse espaço” e “explorar” – sim, eu estava oficialmente em território gamer. Na cozinha, dois estudantes se viram pra preparar um macarrão, enquanto outros dois limpam os colchões do lado de fora sob a supervisão de um cachorrinho que parece ser o mascote do campus.
O campus tem poucas meninas – me disseram que eram umas nove, mais ou menos, enquanto são mais de duzentos rapazes. “Pra ser sincero, nunca vi todas elas”, me confessou o guia, abaixando a cabeça.
Já tive essa idade, sei como é.
Conheci quase todos os ocupantes e escolheram um rapaz pra meio que servir de locutor – o que caiu por terra rapidinho, por conta do perfil descentralizado de gestão dos estudantes. Ao contrário dos meus tempos, a galera hoje usa um sistema bastante horizontal para se organizar. Essa metodologia tem sido fundamental para fazer o movimento tomar corpo e ninguém “crescer” às custas da causa. Todos participam das decisões e todos têm direito de propôr soluções. Vale frisar que a turma das ocupações costuma ser bastante participativa.
Mesmo diante de uma causa tão nobre, que é ajudar na pressão para impedir a aprovação de uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição), os jovens continuam sendo jovens: vi poucas caras amarradas e o clima era bem agradável no geral. Não dá pra esquecer por um minuto que são estudantes de games e em vários momentos percebi gente jogando algum tipo de jogo – cara, porque não tinha essa formação há 15 anos atrás? Que inveja!
Após um papo mais profundo com três estudantes, partimos pro centro de Engenheiro Paulo de Frontin. Eles haviam combinado com uma galera de outras escolas da região para realizarem um ato na praça principal da cidade, em frente a Prefeitura Municipal. Infelizmente (ou ‘muito estranhamente’) o colégio estadual instalado de frente para a pracinha liberou os alunos mais cedo, deixando o ato mais vazio. Mesmo assim a galera não desistiu e conversou com os transeuntes, ligou o aparelho de som e arrancou vários aplausos das pessoas que se dividiam entre o boteco e a barraquinha de doces.
Minhas impressões vão um pouco além da luta contra a PEC. Sozinhos, estes estudantes não vão derrubar a votação. Mas em rede, junto de mais de outros 80 IFs ocupados, fazem um barulho enorme. Além disso, todo o sistema de autogestão, a divisão de responsabilidades, o trabalho em grupo, a mobilização e tudo mais, cumpre um papel fundamental para formar estes novos cidadãos. É nítido que essa nova geração de cidadãos é mais organizada. A internet está aí a favor deles, que mantêm contato constante com outras ocupações e se informam muito mais do que a minha turma lá de 15 anos atrás.
Daqui há alguns anos vamos sentir o reflexo dessa turma na sociedade, de forma bem orgânica. Eles quem vão ocupar cargos públicos e de gestão de empresas e vão dar um rumo para o mundo. O aprendizado deles agora é crucial para os tipos de organizações que teremos em breve por aí – sejam empresas multinacionais, partidos políticos, ONGs, startups, empresas públicas, órgãos fiscalizadores e por aí vai.
Se depender deles, o Brasil (ainda) é o país do futuro.
Preparei um vídeo mostrando um pouco dessa história. Confere lá:
https://www.facebook.com/wesleybrasil/videos/637081089807796/