Quinto dia útil do mês e a grana já acabou. Ainda tem duas contas penduradas na geladeira e a garota não pára de chorar. O leite na mamadeira não falta, mas a carne não feita no prato faz tempo.
Vegetariano forçado.
Tô pensando em ir pra pista fazer umas correrias. Roubar de faca é perigoso demais e não tenho disposição pra puxar o gatilho. Sem contar que até pra arranjar uma peça tem que ter dinheiro e eu não quero pegar nada “emprestado” com os amigos.
O almoço foi batata.
Ontem escutei minha vizinha apanhando e depois fiquei sabendo que o marido dela tava enfiando a porrada nela. Sorte dele que não tenho a peça. Mas tô cheio de ódio e pra quebrar uma perna de três no lombo dele não custa muito.
Mas tem a menina.
Crescer sem pai é uma merda e não quero isso pra ela. Tenho que pagar as contas. Minha vizinha merece paz. O marido dela tem uma empresa de caminhão, vou ter que pedir emprego pra ele.
Que merda. Minha sobrevivência depende daquele filha da puta agora.
Esculachar trabalhador é foda, mas a lei da rua não diz nada sobre empresário que bate em mulher. Eu podia sequestrar ele. Mas ele tem uns cana que são amigo dele, pode dar merda e não quero minha filha crescendo sem pai. Crescer sem pai é uma merda.
Não quero isso pra ela.
Mas também não quero que o castelo dela seja essa casa toda zuada. Tem que reformar esse barraco, sair daqui, sei lá.
A cabeça tá a mil e acabei de ouvir a vizinha gritando de novo. E eu aqui cheio de ideia na cabeça, nenhuma que não envolva sangue. Não dá pra aceitar esse mundo com homem que bate em mulher. Não posso tolerar mais isso. Se ele morrer, é um a menos.
Um.
Eles são pior que os coretinho no Centro, roubando cordão de otário. Morre um, nasce dois.
Quer saber? Vou pra pista.
Comércio de ouro tá agitado.