Fiquei um ano sem perfil no Facebook: o que mudou na minha vida?

A última vez que fui marcado num post do Facebook por uma pessoa foi há (quase) exato um ano atrás. Eu estava no Meeting Of Favela ralando no bar do evento e um camarada chegou, me abraçou, batemos uma foto e rolou a famigerada selfie. Pois é, já tem um ano que não recebo notificação de “fulano te marcou numa foto” onde saí menos bonito. Nesse tempo todo, um bocado de coisa mudou.

Quando finalmente girei a chave, limpando meu perfil pessoal e virando somente página, falei do assunto “amizade”. Rolou tipo um post de despedida falando sobre o assunto. E é um bocado sobre isso que essa história tem a ver. Sobre construir amizades não só com as pessoas mas também consigo mesmo. Quero destacar esse trecho em especial pra gente trocar ideia:

“Não quero ser o modernoso, mas quero realmente entender isso. E mais: quero refletir mais profundamente sobre os assuntos da vida, quero me aprofundar nessa coisa de “amizade”, quero me tornar um escritor, quero um monte de coisas que não são do menor interesse dos mais de mil amigos que esse site disse que eu tenho.“

Uma nova experiência com o Facebook estava começando. E se o Facebook hoje faz parte da vida da maioria das pessoas, de uma certa forma eu começaria uma nova experiência de vida. Cada parágrafo a seguir vai ter um termo em negrito, sinalizando o que mudou.

Sem aquela enxurrada de informações vindas daquele montão de gente, passei a ocupar meu tempo na internet com outras coisas. E é bem curiosa a maneira que o Facebook preencheu minha timeline: a maioria das páginas que antes desapareciam no meu feed, a partir daquele momento, voltaram a surgir. A rede se tornou uma fonte de conteúdo com a curadoria feita por mim – e não mais sobre as pessoas que tenho mais contato. Com isso, passei a ficar muito mais informado. Ah! E os vídeos engraçados/curiosos de páginas como o ’Now This’ passaram a pipocar na minha timeline também.

Encontrar comigo nos últimos meses passou a ser sinônimo de novidades. Eu não fiquei mais sabendo das coisas ‘em massa’. Se algum amigo tivesse algo legal pra contar, eu saberia nos encontros pessoais ou por telefone – como nos velhos tempos. E isso não me manteve distante, já que fui um dos primeiros a saber que o Bobi seria papai, por exemplo. E isso transformou cada encontro em algo muito mais especial. Eu não dizia mais "ah, eu vi no Facebook”. E por mais que eu tivesse mantido a página, os meus amigos sempre diziam: “cara, vi uma parada assim assim na sua página, que legal, conta mais”. Afinal, na página evito textões e vou mais direto ao ponto. Como nos bons anos 90, encontrar com pessoas se tornou algo mais profundo e menos regado a assuntos que a nossa rodinha de pessoas fala.

Passei a ter assuntos mais amplos e mais dispostos a sair do raso e mergulhar fundo nas conversas.

Isso esbarra na questão da amizade. É impressionante como nada mudou no contato com algumas pessoas. Continuei vendo algumas pessoas, passei inclusive a ver muito mais outras. Telefone, Whatsapp, Twitter, email, inbox da página…: O que não faltou foi meio de me encontrar. As relações mais superficiais acabaram ficando pra trás e consegui enxergar melhor algumas amizades. No entanto preciso fazer uma ressalva: cheguei na casa dos 30 e algumas amizades antigas foram resgatadas graças ao Facebook. Se em 2015 voltei a ter contato com um bocado de gente, esse ano sem perfil não resgatou o povo da adolescência, da infância…

Ficar esse tempo sem perfil foi uma verdadeira desintoxicação digital. Voltei a ser mais ativo no Twitter e passei a ler alguns autores que gosto. Há pouco tempo descobri uma ferramenta fantástica, o Feedly, que me permite adicionar os feeds de autores que quero acompanhar. Também criei um novo hábito: passei a assinar canais no Youtube e assistir de manhã, no café. Com isso, a carga diária necessária de entretenimento e cultura inútil estava garantida. Pois é, meu Netflix deu play em muito mais documentários do que nunca antes na história desse país.

Talvez o ponto alto seja a tal produtividade. Num ano de crise, onde migrei de uma vez por todas do design para a redação, conseguir trabalho talvez fosse o maior de todos os desafios. Na verdade fiquei pasmo com a quantidade de serviço, passei inclusive um bocado de coisas pros amigos e me mantive focado na meta de tornar-me um comunicador. Mais focado e sem tanto ruído, tive que cumprir com a promessa que fiz pra mim e pra quem curte meu trabalho: manter a página alimentada com conteúdo novo toda semana. Comecei a escrever muito mais, a ter disposição pra escrever coisas maiores e cheguei perto de escrever o primeiro livro – mas a quantidade de páginas do projeto não era suficiente ainda.

Ainda.

Neste exato instante estou voltando a adicionar e aceitar as pessoas no meu perfil. O motivo disso é apenas um: relevância. O Facebook massacra os criadores de conteúdo e obriga as páginas a fazerem anúncios. Cheguei a emplacar alguma coisa de conteúdo orgânico, mas tenho consciência que como comunicador, o meu trabalho não é tão sexy quanto de um músico ou um fotógrafo. Já ouvi várias vezes a mesma frase: “cara, você precisa divulgar as coisas que você faz”. Quando mostro minha página como resposta, a galera fica revoltada em não ter visto isso ou aquilo que fiz. Por isso voltarei a ter perfil, pra poder compartilhar o conteúdo que venho gerando na página e alcançar mais gente.

Diante disso tudo, acredito que o Facebook não venceu a queda de braço. Tive a chance de me tornar alguém melhor, me diverti muito mais com a galera no Twitter e mantive um círculo de amizades. Não precisei dessa rede pra ser lembrado pelas pessoas. Não precisei apertar o “confirmar presença” pra estar nos lugares. E agora que sei como é a experiência do Facebook só com o conteúdo das páginas, só eu clicar em “feed de páginas” que mantenho meus hábitos digitais na rede como antes.

Ficar esse ano sem perfil me fez lembrar o quanto a gente não precisa de Facebook pra viver melhor.