Faroeste do subúrbio

Dois copos sujos de uísque descansam sobre a mesa, enquanto Ribamar contempla a podridão da sua história. São alguns segundos até os copos voltarem ao trabalho, enchendo-se e fazendo um bung-jump: da mão direita cheia de calos à mesa arranhada de outros carnavais.

Ainda tonto, depois de meio litro de uísque, Ribamar olha ao redor tentando identificar o banheiro. Saiu cedo do trabalho hoje, é verdade, mas foi por uma boa causa. Afinal, não é todo dia que se completa 40 anos de idade.

Seria romântico tocar agora um blues antigo. Mas a jukebox dos milicianos só toca aqueles pagodes velhos, que um dia Ribamar usou para animar suas noites. Agora servem apenas como canção para seu cotovelo dolorido. Não, a vida não é romântica. Não a de Ribamar. Mas essa é sua festa, sua música, sua bebida, seu momento.

Dois caras de camisa de botão entram no recinto. Seria um momento faroeste, aquela coisa dos velhos tempos do uísque mais farto que água. Ribamar os encara, pensa que são os donos da máquina de música, já cansados de ganhar dinheiro às custas de bêbados. Para sua sorte, são apenas dois matadores, que acabaram de pegar sua recompensa por assassinar uma mulher velha, chata e com varizes.

Ribamar pagou os dois com o dinheiro que roubou mais cedo na repartição.