Quatro mesas, quatro famílias. Do lado de fora do restaurante, Ribamar observa os sorrisos felizes, os casais apaixonados e as crianças inquietas, batalhando pela atenção de seus pais.
É domingo.
Como de costume, está bêbado. Mas dessa vez o estômago clama por descanso, se possível comida. Restaurante lotado.
Debaixo de sol, aquele mar de felicidade entre as mesas só piora a embriaguez. O casal lá do fundo troca olhares entre um garfo e outro. Sorrisos de canto de rosto intercalam pequenas frases eventualmente interrompidas por gargalhadas. Vai ver, é até amor. Na mesa ao lado, perto da janela, dois velhinhos saboreiam o almoço. Não têm pressa, não precisam mais se conhecer com palavras como antigamente e deliciam o ato de viver. Juntos.
Na frente de Ribamar, perto da porta, uma família se diverte. São três crianças, um pai e uma mãe. Parecia comercial de margarina, não fosse a pele escura de cada um deles.
Se escorando na porta, acompanhado de um saco vazio de papel na mão esquerda, Ribamar observa cada gesto em câmera lenta. Por um instante pensa em parar de beber, fazer a barba, ajeitar os dentes e procurar um grande amor. Mas agora não dá, seu pedido chegou.
Mais duas garrafas de pinga pra levar no saco de papel.