Equilibrado no meio-fio

Tá chovendo pra caramba e Ribamar insiste em ficar ali, de pé, com um buquê de flores já murcho esperando as pessoas saírem daquele prédio tão movimentado na rua que faz esquina com o Banco Central.

Ensopado, Ribamar não consegue distinguir o sabor das lágrimas, do suor, da chuva e da pinga. Só sabe que algumas horas atrás comprou flores e chegou na portaria, onde foi devidamente impedido por um porteiro que ironicamente se chamava Ribamar também. E que também bebia. Mas não era tão triste a ponto de sonhar de pé, apoiado no meio-fio por um abraço que jamais chegaria.

Mas afeto, em tempos de cólera, é a doença que ninguém quer curar.

O Sol se põe em Ribamar. Ele permanece. Firme. Eventualmente nem tão firme, afinal a cachaça faz o corpo balançar. Vertigem.

A chuva cansa de trabalhar quando algumas gotas, solitárias, com vírgula mesmo que é pra dar ênfase, escorrem pelo rosto. Ribamar sorri. Ele sabe que todo seu amor pode ser recompensado. Ele sabe que a qualquer instante ela vai sair daquele prédio da Rua Visconde de Inhaúma. E dá-lhe gente sorrindo, gente se abraçando, gente satisfeita, gente comemorando, dose de pinga, chuvisco, mais gente saindo, vendedor de chiclete, flanelinha. Vem, doutor! Desfaz! Valeu, meu superior!

Plantado na beira da calçada, Ribamar tem uma vertigem mais forte. Tonteia.

Cai.

Cinco pessoas ajudaram aquela pobre alma com terno de lã e camisa por cima da calça de sarja, enquanto o boteco cheio de gente branca toca um Stan Getz paquerando bossa nova. Gente bonita, sorridente, com drinks enfeitados na mão. Drink?

Ribamar puxa uma garrafinha d’água com pinga.

Enquanto isso, do outro lado da calçada, uma moça de vestido verde e pele preta nem desconfia que havia um mendigo apaixonado por ela. Como um anjo, ela seque seu rumo, adereçada apenas com o essencial de quem vive no céu.

Asa Branca.