Ele foi preso após decidir ser artista

Um século após a ocupação da primeira favela do Brasil, o Morro da Providência, descendentes daquele povo se organizaram para criar a Roda Cultural da Central: uma ocupação de rua baseada no modelo das batalhas de rima, uma das principais manifestações da cultura hiphop – que desde janeiro de 2018 é patrimônio imaterial do Estado do Rio de Janeiro

A primeira edição do evento aconteceu no dia 21 de março de 2018 e desde então a Praça dos Cajueiros (CJ) passou a se tornar ponto de encontro semanal do coletivo de artistas e produtores. Toda quarta-feira às 19h, jovens de todos os cantos da cidade metropolitana disputam uma das vagas para usar a principal arma dos MC’s: o microfone.

A atividade semanal começou a promover uma mudança no entorno da praça: a dupla de produtores Cejota (Celso Barreto Júnior) e GTA (Rodrigo Manoel Valin da Silva) passou a mobilizar arrecadações de alimentos, roupas e livros para famílias carentes, muitas formadas por descendentes da tal ocupação do início do século que jamais tiveram acesso ao básico da sobrevivência. O espaço que antes era usado para o abuso de drogas passou a ser reconhecido pelo bairro como uma área de lazer para toda a família.

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No dia 1º de agosto do mesmo ano, GTA publicou um vídeo nas redes sociais onde denunciava que estava sendo assediado por policiais militares que iriam “tontear” a roda cultural.

“"Eu sou artista, quero meu respeito, meu direito de ir e vir. Liberdade de expressão, pô. Quê que tá acontecendo?“
– Rodrigo GTA

Algumas semanas depois, no dia 30 de agosto de 2018, Rodrigo Manoel foi preso por Desacato (Art. 331), resistência (Art. 329) e lesões corporais (Art. 129).

Desde a sua prisão, outros organizadores e frequentadores da Roda Cultural da Central têm tentado mobilizar a comunidade do hiphop e veículos de imprensa para acompanhar o caso, que não é isolado: recentemente o DJ Rennan da Penha, que é um dos responsáveis pelo Baile da Gaiola, também foi preso. Relatos de diversos lugares do Rio e Grande Rio apontam que atividades de rua como as Rodas Culturais têm passado por forte repressão vindas do Estado – seja o poder estadual, municipal e/ou principalmente militar.

A mobilização pela liberdade do produtor cultural GTA contou com algumas iniciativas para arrecadação de fundos para auxiliar sua família e também para informar as pessoas da situação do produtor cultural. Mesmo articulada em uma rede de rodas culturais, a turma da Central do Brasil ainda levaria outro golpe: em 12 de março de 2019, GTA passou a responder também por um novo processo, desta vez acusado de assalto a mão armada – apesar de estar há quatro meses e meio privado de sua liberdade.

Em 10 de abril de 2019, GTA foi sentenciado ao cárcere por 7 anos e 2 meses.

A audiência que definiria seu destino foi marcada para o dia 27 de maio de 2019, porém foi adiada para o dia 24 de junho de 2019. Agora a Roda Cultural da Central está mobilizando o máximo de pessoas para estarem presentes neste dia, mostrando ao judiciário que este caso não é normal e tem um forte significado para o cidadão carioca.

A prisão de Rodrigo Manoel da Silva torna explícita a maneira como a sociedade repete os ciclos de exclusão de pessoas pobres e negras. Se no início do século a população paupérrima do Centro do Rio foi despejada sem nenhum planejamento nem apoio do Estado, hoje este mesmo Estado cria mecanismos para a manutenção da pobreza – ao invés de sua erradicação. Pessoas como GTA são imediatamente julgadas pela sua cor, seu estilo de cabelo e forma de falar. Agindo pelo instinto a favor do seu bairro, GTA não fez uma faculdade nem curso de produção cultural. Não aprendeu a se posicionar com a linguagem acadêmica que defende iniciativas como a sua na Praça dos Cajueiros.

O futuro incerto de GTA é um retrato da cultura hiphop no país, que apesar de conquistar cada vez mais espaço na mídia nacional, ainda carece de muito suporte na base das suas atividades.