
Ribamar sai da porta do boteco cambaleando, onde chama a pinga de remédio. A cachaça pura já não faz efeito. Dois comprimidos. Muitas dores pra curar.
Difícil mesmo não é conseguir o remédio do boteco. Complicado foi a farmácia. Teve que contar com a boa vontade de um segurança que já o havia visto na calçada. O dinheiro não dava pra uma cartela mas tudo bem: só precisava de dois comprimidos de relaxantes musculares.
Após anos morando nas ruas, nada é capaz de abalar Ribamar. O cabelo bagunçado, as roupas sujas, nada é mais como antes. Sequer tem mais aquele papelão guardado na estação central. Ele dorme em qualquer marquise, descansa em qualquer banco e bebe onde consegue um otário para lhe sustentar o vício.
Ele não se abala porque sequer tem estrutura.
Riba conseguiu, finalmente, seu objetivo. Não lembra mais quem é. Não lembra da família que teve no passado. Não lembra dos filhos. Do trabalho na repartição. Do ventilador que girava preguiçoso à meia luz na sala apertada cheia de papéis.
Ribamar não lembra de nada que tirava sua liberdade.
Hoje vive preso na rua.