Do cais ao oriente

Tava na livraria. O dia até que tava bom, tava animado, tava colorido e tudo mais. Quase almocei numa brasserie perto daquele nosso último almoço, lembra? Era um bistrô refinado, mas bem descontraído. Pé direito alto. Entre aqueles tantos pratos chiques, você quis mesmo um simples escalopinho. Cê comia devagar.

Minha última lembrança sua é do abraço naquela rua apertada depois do almoço. Um tchau, que mesmo precedido de um abraço bom, era o anúncio de um fim nada desastroso, triste como da primeira vez que nos vimos.

Tava olhando uns livros, quando de repente vejo aquele que você me deu. Ele virou um filme – que nunca assistimos. E no meio daqueles outros best sellers, veja só, escolho um que conta a história de um cara que se apaixonava por ninguém mas de repente se via perdidamente apaixonado por uma moça. “Uma noite não é o bastante”, dizia na sinopse. Engoli seco as lágrimas que faziam um ataque soviético em meus olhos.

Quando me canso dos livros, subo as escadas em direção à cafeteria. Você odeia café. E aí engulo seco de novo, lembrando que você dava um jeito de me acompanhar, pedia um suco, pedia uma água, teve uma vez que até “nada” você pediu, porque queria mesmo ficar do meu lado.

A ironia do universo é tamanha que esbarro numa mulher que trazia entre os braços uma cópia de ‘E o vento levou’. Bogart e Bergman abraçados naquela capa e eu só conseguia pensar em nós, no nosso lugar, no nosso momento, vivendo a nossa vida. “Nós sempre teremos esse lugar”, eu te disse. “We’ll always have Paris”, lembro toda noite antes de dormir.

Acabei não almoçando na tal brasserie. Ela tocava um jazz. ‘Flamenco Sketches’, do Miles Davis, embalava os dois casais que ocupavam aquele salão amplo (e vazio). O som melódico era o clima perfeito pra se ver. Pra te ver. Pra nos ver. Daí lembro de ter ouvido ‘Kind of Blue’ inteiro contigo depois de ler cada pedaço seu em braile numa noite.

Uma noite não é o bastante.