Hoje é seu dia, Berê. Pára de chorar e sorri. É dia de mostrar como você é forte, é dia de ignorar sua dor, seu álbum de tristezas. Hoje é dia da mulher, Berenice, se orgulhe!
Mesmo com os pedidos mais vazios que recebia, Berenice se escondia no canto da sala. Olhava o chão com certa ternura, enquanto fazia círculos com a mão direita. Sentada de pernas fechadas com o vestidinho florido, Berê parece estar em outro lugar, senão aquela ampla sala cheia de mulheres comendo bolo e festejando polidamente. 8 de março, dia internacional da mulher.
Aquele corpinho frágil não sabia como se comportar. Se era seu dia, porque devia agir do jeito que esperam? Se ela podia comemorar, porque não podia se afogar no ponche e dançar descontroladamente sua música favorita? Se tinha autorização, só nesse dia, porque não podia fazer tantas coisas que os meninos do outro lado faziam todo dia?
Berê se irrita.
Como boa menina, não demonstra sua irritação e se mantém calada. Boa menina. Passadas as duas horas de festinha, as gordas que dominam a sala começam a arrumar tudo. O marido da dona da casa estaria chegando, provavelmente bêbado, e tudo precisava ficar em ordem. A decoração rosa dava lugar a uma sala sombria. As mulheres vão sorrindo para a cozinha, e Berenice se levanta delicadamente para observá-las lavando a louça. Se oferece para bater o pano de prato. Boa menina.
No dia da mulher, o que Berenice mais queria era ser homem.