Ela dançava. Trocou o vestido florido pelo short curto, mostrando só a curvinha das suas curvas, disfarçadas entre as fitas esvoaçantes agarradas às suas vestes. Berenice sambava, sorria e jogava charme pelo ar.
Pré-carnaval.
A festa da carne se aproximando e aquela menina trocava seu sorrisinho bobo meio triste por uma postura de moça feita. Parecia até rainha da bateria, mas com seu corpinho magro, mal conseguia espaço entre as muitas passistas da escola. Berê não desistia.
Talvez não tivesse todo o talento daquelas mulheres pretas e talentosas para a dança, mas ela persistia, com seus cabelos ruivos, a saltitar de forma tão cadenciada que seria capaz de marcar a batida da bateria com perfeição. Berê abre os braços. E olha pro alto, pensando nos seus amores mal resolvidos, nas noites tristes que a adolescência dá, nas noites de chuva e de lua-cheia, como essa em que ela está livre do tal vestidinho e pode ser apenas mais uma entre tantas dançarinas. Ela se arrepia olhando pro céu, com a cabeça erguida e os olhos quase fechando.
O surdo faz um barulhão.
Embalada pelo samba, pelo ensaio, pela noite atípica em sua vida suburbana quase interiorana, ela sente aquele gostinho de liberdade. Pensa em correr pelas ruas, em abordar os rapazes na cuíca, em participar das conversas da velha guarda… Mas ela lembra que é só uma mocinha e amanhã é outro dia. Se comporta, menina.
Suada, volta pra casa num carro gelado junto das amigas. É a primeira a ser entregue em casa. Amanhã tem escola. Tem vestidinho florido. Tem aqueles garotos sem graça do fundo da sala com piadas infantis. Tem professores de esquerda ensinando coisas chatas. Professores de direita ensinando números. Tem o recreio chato com as garotas que só falam de unhas e meninos.
Berenice só queria mostrar suas curvinhas.