O rolé das crias da Baixada Fluminense tá fazendo cada vez mais barulho

image
Coletivo promove o encontro de jovens periféricos, com uma atenção especial para o público feminino e LGBT. Foto: Quitta Pinheiro.

A disputa de narrativa da metrópole carioca tem feito surgir novos personagens que resolvem assumir também o papel de autores e escrevem suas próprias histórias. Essa nova possibilidade, de viver em um Rio de Janeiro cada vez mais suburbano e sem nenhuma vergonha disso, tem dado cada vez mais poder a uma geração inteira de jovens armados com smartphones, conexões com a internet e sede de entretenimento.

Além da Linha Vermelha que divide o Rio de Janeiro em sentido literal, na Baixada Fluminense tem pipocado uma série de iniciativas que traduzem o espírito dessa época hiperconectada e desconstruída, que não aceita os rótulos criados pelos baby boomers e herdados pela geração X (pessoas nascidas entre 1965 e 1979)

É nesse clima de transformações profundas na dinâmica do mundo e da cidade que surgem iniciativas como a DiCria: uma produtora cultural que essencialmente é um coletivo, envolvendo artistas de diferentes especialidades em projetos pontuais ou recorrentes, que geram receita ou ‘apenas’ (entre muitas aspas) impacto social.

A ideia surgiu quando Carol Gonçalez estava no terraço do Galpão 252 (local onde trabalha, em Nilópolis) e, literalmente, começou a escrever “a proposta de uma produtora com intenção de valorizar o corre de quem está na Baixada Fluminense e no subúrbio do estado do Rio de Janeiro”, como ela mesma explica.

Para transformar o papel em ação, Carol chamou reforços: Donan (que também é seu companheiro tanto na vida quanto no coletivo Gnap) e Beatriz Rodrigues. Os três dividiam uma casa e viram a possibilidade de custear as despesas conjuntas. Além da produção fixa, outros artistas colaram no rolé, como Luiza Bastos e Quitta Pinheiro na fotografia.

O batismo do coletivo aconteceu em pouco tempo, realizando seu primeiro evento em uma colaboração com a RCPT (Roda Cultural da Praça da Telemar, que acontece em Mesquita e atualmente está embargada pela prefeitura da cidade), o ‘DiCria + RCPT’, que envolveu projeções, exposições e batalha de rimas. A própria venda do bar cobriu os custos da logística.

Mesmo cheia de iniciativas como a RCPT, que promovem o debate, a Baixada Fluminense ainda tem fortes traços do modelo de sociedade século passado e sua oferta de entretenimento gira em torno de um circuito comercial baseado no eixo da ‘balada hétero’, onde as mulheres são atraídas pela venda de bebidas alcoólicas abaixo do preço e vantagens nos ingressos – sem preocupação com a musicalidade ou o ambiente seguro para elas, o que pode naturalizar situações de assédio dos homens sobre as mulheres. Isso trouxe um incômodo para Carol, que explica: “eu via muito ‘resenha dos crias’, ‘social dos crias’, sempre com esse protagonismo masculino nos eventos e com as lines [listas de atrações] sempre com homens. Eu ia nas sociais aqui do bairro e nunca tinha uma mulher tocando, nunca era pra nós o evento”.

A necessidade de novas possibilidades para o público feminino e LGBT serviu como fagulha para o segundo evento da Coletiva DiCria, a Social das Crias. A primeira edição aconteceria no Galpão 252 e teve uma série de imprevistos na montagem do lineup. O evento foi cancelado e aconteceu uma semana depois, na rua: "Já tava na segunda data, no dia choveu mas a gente não arredou o pé”, explica Carol. Na hora do agito não choveu e o baile rolou até meia-noite na Praça dos Direitos Humanos, “a gente foi na cara e na coragem mesmo, não tinha nem autorização oficial”. A segunda edição aconteceu em agosto de 2017, com entrada franca no Galpão 252.

A relação do coletivo com o espaço instalado na Estrada Senador Salgado Filho 252 (em Olinda, Nilópolis) vem de longe. Por vinte anos o espaço era um negócio familiar comandado por Ricardo Jardim e sua esposa: um depósito de gás que fazia entregas pelo bairro. Em 2014, Ricardo encontrou com dois amigos (Gustavo Bayer e Marcio Gleison, o Baba) e surgiu a ideia coletiva de fazer um ensaio de bandas, que viria a transformar o galpão em um ponto cultural – ao invés de um estacionamento, que era o plano original de Ricardo. A criação do Galpão 252 mexeu com a dinâmica da família Jardim (que Carol leva no sobrenome): “de início eu não estava presente, eu era ligada na arte mas só como artista e não como produtora”, explica Carol. Em menos de um ano, Carol já estava envolvida como produtora de eventos no local e se tornou sócia do espaço, cuidando da comunicação (e produção) da casa. Diversos coletivos passaram pelo Galpão 252, principalmente nilopolitanos.

Girl Power

“Elas são a nossa prioridade”, dispara Carol, que tenta equilibrar a agenda do evento com a das atrações femininas que têm poucas datas disponíveis para atender uma cena underground cada vez mais interessada em ver mulheres entre as atrações, mas que ainda é hostil até mesmo para as artistas.

Carol relata já ter sofrido assédio dentro do seu próprio território, quando um DJ e produtor não respeitou o “não” e tentou puxá-la pelo braço e beijá-la no Galpão 252 no final de um evento.

Este cenário reforça ainda mais a necessidade do coletivo em convidar mulheres para compôr o lineup e por isso nomes como Moonjay, Kenyᐱ e a própria Carol Gonçalez já discotecaram no baile.

Rapazes também são bem-vindos

Mesmo com o foco no público feminino e LGBT, o rolé da DiCria não exclui homens. Artistas como Torvic (TBC Mob), Saquax, Gustavo Baltar, Dorgô e Medu$a já se apresentaram nos eventos promovidos pela coletiva.

Apesar de alguns homens realmente participarem como as atrações, a maior contribuição dos caras é mesmo como plateia, comprando ingressos e chegando junto no bar do evento: a diferença salarial entre eles e as mulheres chega a quase 53% em todos os cargos, áreas de atuação e níveis de escolaridade, conforme pesquisa realizada neste ano pelo site de empregos Catho.

“A gente frisa muito essa questão do respeito porque a gente não quer fazer um baile para as pessoas saírem putas da vida porque ‘ah, sofri um gesto de homofobia’, ou ‘sofri racismo’ ou ‘um homem foi escroto comigo e me puxou pelo braço’. A gente não quer isso no nosso baile.”

– Carol Gonçalez.

No final do ano passado a DriCria realizou também o ‘Hip Hop na escola’, que é uma sequência de palestras e intervenções com oficinas de grafitti e MC. As palestras envolvem o empreendedorismo dentro do hiphop, desdobrando os elementos da cultura como possíveis trabalhos que geram renda.

image
‘Chi-Chi’: Carol precisou encarnar um novo papel ao conceber o pequeno Cícero Gohan. Foto: Ingrid de Lima .

Pausa nos trabalhos

O segundo semestre de 2017 trouxe um novo desafio para o coletivo, que agora era capitaneado por Carol com alguma ajuda de Donan: a gravidez. Os preparativos para a chegada do bebê tiveram um reflexo nas atividades do coletivo, que entrou em ‘modo avião’. 

Em 07 de fevereiro de 2018, às 4:44 da manhã, o pequeno Cícero Gohan chegou ao mundo, carregando uma nova etapa na vida do casal. O nome do bebê não é por acaso: a avó de Carol se chamava Cícera e o pai é apaixonado pelo anime japonês Dragon Ball Z que resolveu homenagear o astro da atração, Goku, com o nome de seu filho: Gohan.

Retorno a 150 BPM

Voltando a dar sinal de rede, a coletiva DiCria segue o baile no ritmo louco e anuncia Iasmin Turbininha no lineup da próxima edição da Social das Crias, que vai rolar no dia 11 de agosto no Galpão 252. Turbininha é uma das principais difusoras do funk 150BPM (Batidas Por Minuto, referente a velocidade da música) e coleciona milhares de seguidores nas redes sociais (só no YouTube são mais de 250 mil).

Convidar uma atração como Iasmin Turbininha é também um ato político. Cria da Mangueira, a DJ está longe dos padrões estéticos e constrói sets que abordam a sexualidade latente da juventude. Em uma entrevista para a Revista TPM, ela explicou: “Muita gente critica a agressividade, mas é o mundo que a gente tá vivendo hoje. A gente lança o que o público quer ouvir. A putaria vem de todo canto e tá na mente”.

A quarta edição da Social das Crias traz outra mina preta empoderada pelo seu trabalho, à margem do mainstrem: Aika Cortez. A artista já afirmou fazer arte por ódio e usa sua obra a favor de outras minas, do povo preto, pessoas periféricas e LGBT’s. Aika terá uma participação especial nesta edição, atuando também como sócia: “há uns dois anos eu queria fazer uma social só de mina e queria gravar um clipe com isso, mas acabou não dando certo. Esse ano alguém resgatou um post que fiz sobre isso e a Carol me chamou pra gente fazer. Desde então começamos a pensar como seria essa edição especial”. No evento, Aika vai captar imagens para seu próximo clipe (sob a direção do Coletivo Bicho do Mato) para uma músca que faz parte do álbum novo, ’Aik-47’.

Já que a noite será comandada por mulheres, nada melhor que uma tripulação recheada delas. Por isso o line traz ainda o coletivo Nefetaris Vandal (formado só por minas pretas), a DJ Moonjay e a N-BOMB.

De olho em um ano promissor, a coletiva DiCria já planeja seus próximos passos: tudo aponta que a Social das Crias veio para ficar e outras edições já estão sendo desenhadas. De acordo com Carol Gonçalez, o ‘Hiphop na Escola’ também volta com tudo para influenciar a juventude pela arte e empreendedorismo.

É melhor a rapaziada já ir respeitando as cria. Principalmente as da Baixada.

DiCria nas redes sociais: facebook.com/coletivadicria/.