Colecionadora de pôr do Sol

Carregava no rosto o sorriso mais “sorria comigo, porque estou contente” que alguém poderia ter. Berenice era pele branquinha, cabelo curtinho, vestidinho de florzinhas e batom vermelhinho.

Fim de tarde era seu ritual favorito: sentar no meio-fio, apoiar os cotovelos nas pernas fininhas e o rosto nas mãos fechadas. Às vezes abertas, pra secar as lágrimas. Berê olhava o sol se pôr todo santo dia.

O bairro sujo e pobre que ela morava era um contraste com sua formosura. Berenice era a menina da flor azul, era a esperança de uma cidade. A leveza dos seus passos no final do dia era o que aquelas pessoas tinham de mais próximo dum poema.

Anteontem foi encontrada morta com três facadas e sangue entre as pernas. Seu assassino também era menor de idade.

Virou pastor.

Semana passada fez uma pregação bonita sobre a vingança de Deus.